Amando inventar estórias…

07
DEZ
2012

Pequenos Grandes Prazeres

Ciranda

Semana que vem acaba o curso de Escrita Criativa que eu vinha fazendo desde março, na Casa do Saber, e já sinto saudades. Foi um ano de grandes descobertas e uma das mais gostosas foi conhecer o poder que uma caneta e um papel (ou um teclado de computador) dão à imaginação. A Literatura aceita tudo, das estórias mais loucas às mais verossímeis, absolutamente tudo é possível. Também descobri que inventar é muito, muito difícil; aliás, pra mim, é bem mais difícil do que escrever. Tenho exercitado bastante, notei melhora nos últimos textos propostos no curso, mas ainda falta um bocado pra aprender, sempre haverá.

O texto abaixo é a última lição do curso, enviado hoje à professora e resolvi deixar aqui, pra quem tiver paciência de ler. Ótimo final de semana!

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Ciranda, Cirandinha

Os dois meninos estavam animados com o fim de semana que os aguardava. Finalmente o padrinho de Samuel tinha decidido cumprir a promessa feita há quase três anos, ocasião em que enviou um cartão felicitando o sobrinho pelo aniversário e prometendo mandar buscá-lo, qualquer dia desses, para passar uns dias no Haras Querência, uma linda e extensa propriedade que herdara do pai e que administrava com destreza e paixão. O Padrinho Ernani era um homem reservado, morava solitário no haras desde a morte precoce da mulher. Tinha o rosto fechado e raramente fazia ou recebia visitas, exceção feita aos compradores dos premiados Mangalaras que criava, a quem atendia com polida arrogância. Recebeu com estranheza e alguma suspeita o convite da sobrinha para batizar seu primeiro filho e não encontrando uma maneira razoável de declinar do convite, apadrinhou o menino. Não se viram mais do que três ou quatro vezes desde então, mas, por educação, procurava manifestar lembrança em datas especiais e até sentia alguma culpa por sua ausência: o afilhado, afinal, era vítima da péssima escolha da mãe.

Quando um fazendeiro rico, produtor de laranjas da região de Jau, leiloou um de seus cavalos na feira agropecuária regional, ocorreu ao Padrinho Ernani aproveitar a viagem do caminhão que faria o frete do animal leiloado para, no caminho de volta, trazer o sobrinho que morava na cidade vizinha, a pequena Itirapina, para uma breve visita. Não via graça naquilo, não sentia vontade de ver o menino, mas entendia como uma pendência protocolar que precisava cumprir.

Samuel não conseguia dormir. Estava ansioso e animado com a possibilidade de conhecer o haras do padrinho, sempre descrito com tanto entusiasmo pela mãe. Era fascinado pela força e beleza dos cavalos, apesar de nunca ter montado em nada além dos pangarés judiados da praça central de Águas de Lindóia, onde tinha passado umas férias na casa de parentes, tempos atrás. O fato de ter que ficar um final de semana inteiro sozinho com o Padrinho Ernani, também lhe tirava o sono, tinha um pouco de medo dele. E se o obrigasse a montar um cavalo bravo? E se não o deixasse montar em cavalo nenhum? E se  tivesse bife de fígado no almoço? A mãe tinha sido categórica ao afirmar que precisava aceitar de bom grado tudo que lhe fosse oferecido, mas sem esganação, e que não pedisse nada além do ofertado – “deixe uma boa impressão, faça o favor, é a nossa chance”. Olhou para o amigo que dormia sossegadamente nos pés de sua cama e ficou feliz pelo Padrinho Ernani ter lhe sugerido que levasse uma companhia; sem pestanejar convidou o Charles, melhor amigo da escola, a quem chamava de Tainha. Talvez o padrinho fosse um homem bom, afinal.

Os meninos foram recebidos ao pé da escada que dava acesso à sede pela atarracada Carmem Lúcia, moça sorridente e quituteira de mão cheia que logo os deixou à vontade, mostrando o imenso quarto em que passariam as próximas duas noites. Correram para a janela envidraçada que dava vista para os pastos em busca dos cavalos, mas eles não estavam lá. Quem vinha caminhando com chapéu na cabeça e porrete na mão era o Padrinho Ernani e Samuel sentiu um desconforto no estômago quando ele os avistou na janela e sacudiu os braços chamando-os para baixo. Desejou ser descabeçado como Tainha, que pôs-se logo a correr em direção à porta, sem qualquer receio em encarar aquele homem carrancudo e de grandes dimensões.

Sua benção, padrinho. Como foram de viagem? Muito bem, obrigada. Minha mãe man… Querem ver os cavalos? Tamo aqui pra isso, né Samuel? Queremos sim, Padrinho, por favor.

Caminharam em silêncio os 200 metros que separavam a sede do primeiro lote de baias, até que o padrinho começou a soltar um assobio longo, agudo e um milagre aconteceu: um sem número de cabeçorras começou a surgir das portinholas que se enfileiravam ao longo de uma comprida construção com paredes cor de ferrugem, como os cabelos de Samuel. Algumas sacudiam para cima e para baixo, outras apenas olhavam na direção do assobio. Os garotos estavam mudos e imóveis, até que o homem cutucou suas canelas com o porrete, fazendo com que se aproximassem. Eram cavalos muito grandes e enormes e fortes e bonitos.

Pode por a mão? Sim, pode, mas nem todos vão deixar.

Visitaram baia por baia e admiraram os animais como piratas que encontram um tesouro. Ao lado de cada portinhola tinha uma pequena placa de madeira presa à parede com cantoneiras cor de cobre que trazia um nome e uma data. Platão, Sócrates, Aristóteles, Confúcio, Comte, Rousseau, Lutero, Montaigne, Nietzsche, Santo Agostinho.

Santo Agostinho?! Fico com pena do santo ou do cavalo?

O comentário do Tainha fez o padrinho soltar uma demorada gargalhada sacudindo a barriga proeminente, e explicou logo que era hábito herdado de seu pai elaborar, a cada ano, uma lista de nomes de um mesmo grupo de coisas ou pessoas para batizar os cavalos, o que facilitava a identificação da idade dos animais, além de ser divertido. O ano de 1972 tinha sido a vez dos Grandes Pensadores.

Aquelas baias rosadas no pasto ali de cima são dos cavalos nascidos no ano passado, cada um deles leva o nome de uma constelação. Aqueles outros, mais à esquerda, receberam nomes de pintores da Renascença e os cavalos das baias brancas, nascidos em 1974, são os faraós. Escolher uma boa lista é um trabalho que exige conhecimento, criatividade e algum refinamento. O senhor quer que eu prepare uma lista com uns palavrões bem cabeludos pra usar no ano que vem? Tainha! Ah, Samuel, eu bem que queria ter um cavalo chamado Puta Que Pariu, ia ser legal pra caralho! Cala boca, Tainha! Corre, Puta Que Pariu, corre! Depois de recobrar o fôlego roubado por outra gargalhada, o Padrinho Ernani perguntou: vocês querem montar? Tenho alguns cavalos bem mansos que uso na lida da fazenda. Tamo aqui pra isso, né Samuel?

O destrambelhado do Tainha azeitou bem o fim de semana, divertiu o padrinho, aliviou as tensões, falou um monte de bobagens, quase levou um coice e se lambuzou de aboborada, ambrosia, cidra, batata doce, aletria, doce de marolo, de marmelo e bolo de fubá com erva doce. Carmem Lúcia insistia pra Samuel também experimentar de tudo, dizia que precisava “encher suas roupas”, mas o menino continha a esganação, invejando o amigo descompromissado. A ignorância acaba nos protegendo de vez em quando e como o Tainha não fazia ideia de quem era o Padrinho Ernani, se dirigia a ele da mesma forma que ao Seu Pereira, dono da padaria. Eram apenas dois velhos barrigudos que sorriam pouco. Já para Samuel, o padrinho era uma figura quase mítica, a tábua da salvação, segundo a mãe.

Na noite que antecedeu a partida, Samuel estava, novamente, insone. Sentou-se na beirada da cama, acendeu o abajur e começou a balançar os pés que, apesar dos 10 anos de idade recém-completados, ainda não alcançavam o chão. Ficou repassando os últimos dois dias nos pensamentos, tentando decifrar se tinha conseguido causar uma boa impressão no padrinho e como responderia à sabatina da mãe. Concluiu, agoniado, que tinha poucas qualidades e, certamente, não teria conquistado apreço suficiente do homem. Ocorreu-lhe, então, que se fizesse uma boa lista de nomes, nomes refinados, para os cavalos, conseguiria garantir a admiração do padrinho. Virou a noite acordado, queimando os miolos, mas um garoto do quarto ano ainda não conhece muitas coisas. Então, quando o dia já dava de clarear, o cansaço lhe soprou uma ideia.

Samuel e Tainha foram embora junto com dois potros robustos na carroceria do pequeno caminhão. O Padrinho Ernani abanou a mão da varanda em despedida, sem saber se sentia mais pelos potros ou pelos meninos. Voltou-se para dentro da sede e decidiu conferir a correspondência. Sobre a imponente mesa de jacarandá do escritório, encontrou um envelope em que se lia  “Padrinho Ernani”, tornando óbvio o remetente. O bilhete que continha não trazia nada além de uma lista comprida:

Pião

Estilingue

Rolemã

Pipa

Jo Ken Po

Passa-Anel

Corre-Cotia

Barra-Manteiga

Cabo-de-Guerra

Gato-Mia

Pula-Sela

Elefantinho Colorido

E se nascerem fêmeas:

Cinco Marias

Amarelinha

Queimada

Cabra-cega

Batata Quente

Bolinha de Gude

Bandeirinha

e Mãe da Rua.

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comentários

  1. Silvia disse:

    Re que delicia de estoria! Parabens!!

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