Amor flor de pessegueiro

12
JUL
2012

Inspirações

Flor de Pessegueiro

Aproveitando o tempo que corre devagar por aqui e a presença deliciosa da minha avó, cruzei meu braço com o dela e a convidei pra dar uma volta no pomar (eu teria preferido caminhar no jardim, mas ela não pode tomar sol de jeito nenhum, por causa do lúpus). Ela foi me mostrando as árvores, “essa é abacate, essa aqui é ponkan, aquilo ali é mandioca” e apesar de todas as férias que passei na fazenda, hoje foi a primeira vez que vi um pessegueiro florido, que flor linda e delicada!

Rodiei, rodiei, mas foi só quando sentamos na cozinha, depois do passeio, pra tomar uma xícara de café, que consegui fazer a pergunta que foi e voltou na garganta enquanto caminhávamos: “vó, o que é que a senhora lembra dos seus quarenta anos?”, “meus quarenta anos… (pausa longa e reflexiva), nossa, minha filha, você me fez uma pergunta difícil agora”, mais uma pausa demorada e a resposta que me pegou de jeito: “minha filha, tudo o que eu lembro é que sempre fui muito feliz”. Esta resposta me emocionou, percebi num instante que a cabeça dela estava embaralhada com um mosaico de muitos anos de genuína felicidade, cobertos pelo véu da saudade que ela sente do meu avô. Engoli o nó, pisquei os olhos pra ver se ficavam secos de novo e disparei um monte de perguntas bem práticas pra me recuperar daquela primeira resposta. “Vó, mas a senhora morava aonde quando tinha quarenta?”, “na fazenda, seu avô foi sempre um marido tão bom”,  “vó, a senhora lembra de se achar velha aos quarenta?”, “não, velha não, mas eu me chateava por ser um pouco gorda. Uma vez, seu avô me pediu pra esperar acordada com ele o noticiário do rádio, pois estavam dizendo que o Getúlio Vargas tinha morrido,  ficamos nós dois sentados ao lado do aparelho, com as mãos apoiadas sobre a mesa e o queixo apoiado sobre as mãos, assim ó (e me mostrou como estavam) aí, seu avô olhou pra mim e disse: ‘ô, mulher, você é tão bonita, mas precisa emagrecer um pouquinho’, aquilo quase me matou, minha filha!”. “Vó, naquela época não tinha essa preocupação toda com a beleza, né?”, “claro que tinha, Rê, mulher nenhuma quer ficar feia!” (risos, muitos risos).

A conversa continuou gostosa, mas meu avô entrou em quase todas as respostas, como se não existisse passado sem ele. Minha tia veio se sentar com a gente e minha avó aproveitou pra lembrar que ótimo pai ele foi – “não tinha igual”. Minha tia contou que era péssima aluna, detestava estudar e uma vez trouxe um boletim inteiro vermelho pra casa; minha avó, muito brava, foi mostrar pro meu avô, que falou: “ah, mas tá bom assim, não tá, minha filha?”. Ele era uma delícia mesmo, me lembro bem!

A certa altura, quando achei que já tinha ouvido bastante coisa, saí igual cachorro magro e vim correndo escrever este texto. Faz alguns minutos, minha avó parou aqui do meu lado e falou assim: “lembrei de uma coisa: uma vez, tocou o telefone lá em casa e eu atendi, era voz de moça e perguntou quem eu era, eu respondi que era a empregada da casa e a moça pediu pra falar com o seu avô; eu o chamei, mas fiquei escondida por perto e ouvi ele dizer assim no telefone: ‘olha moça, eu não sei quem você é, mas tenha juízo na vida pra achar um marido bom pra você e não toque mais aqui pra minha casa, por favor’, e desligou”. Ela me contou isso orgulhosa e envaidecida e antes de sair, completou: “é por causa destas coisas que quando abro os olhos de manhã, vejo seu avô ao pé da minha cama, todos os dias”. Esperei ela sair e deixei chorar. Casais assim não deveriam ser desfeitos nunca.

Vô, o texto era pra ser sobre minha avó, mas foi sobre você. Ou será que vocês continuam sendo um só? Lembranças minhas a todos aí no Céu!

FOTO: minha, tirada hoje cedo, do pessegueiro em flor.

“I’m a dreamer, but I’m not the only one” (J. Lennon)

10
JUL
2012

Pequenos Grandes Prazeres

SantaElisa1

Saudações mineiras a todos vocês!

Escrevo diretamente da Fazenda Santa Elisa, no Sul de Minas, lugar de encontro com uma porção das melhores lembranças da minha infância. Quando eu era criança, a fazenda era do meu tio-avô, médico respeitado, fazendeiro bem-sucedido e solteirão convicto que soube aproveitar muito bem vida. Quando ele morreu, deixou a fazenda para meu avô e há 5 anos, quando meu avô morreu (ai, que saudade) deixou a fazenda para os seus 6 filhos, o que inclui minha mãe. E hoje eu estou aqui, me sentindo em casa.

A sede da fazenda é bem grande, foi construída há quase um século pelos primeiros proprietários que não pouparam nos vitrais, nos azulejos europeus e na pintura artística das paredes de todos os cômodos – uma coisa linda, que não se faz mais hoje em dia! Por causa do tamanho, a casa era sempre escolhida para as festas da família e muitos Natais inesquecíveis. Foi aqui que acho que vi o Papai Noel de relance e também deve ter sido aqui que descobri que ele não existe e onde me apaixonei platonicamente por quase todos os meus primos mais velhos (um de cada vez, claro).

Existe um vale de muitos anos que me separa dos meus sonhos infantis, mas quando olho pra essa alameda de palmeiras imperiais que aparece na foto aí de cima, num piscar de olhos sou menina de novo e continuo vendo a mesma cena: eu vestida de noiva, cruzando todo este caminho sob as palmeiras e os olhares admirados dos convidados, me casando ao pé da escada, sei-lá-com-quem – nossa, quantas vezes eu fiquei pintando esta cena na minha cabeça! Passava horas sonhando com coisas deste tipo.

Acontece que eu ainda passo. Eu sonho demais, sempre acordada. Crio roteiros de um filme inteiro na cabeça. Sonho coisas grandes, algumas bem impossíveis, mas não consigo evitar. Eu gosto. Imaginação é o que não me falta. Sonho com a mesma liberdade de quando era criança, a diferença é que agora, quando vejo a mais remota chance de tornar aquilo real, não sossego, dou um jeito. Muita coisa que é realidade na minha vida hoje, foi um sonho tempos atrás. Este blog mesmo é um ótimo exemplo – já sonhei tantas vezes em passar a vida escrevendo, num cantinho gostoso e inspirador, tendo algum doido no mundo que se interessasse em ler e, voilá, cá estamos nós!

“Corra atrás dos seus sonhos” é uma frasezinha tão piegas, tão lugar comum, tão auto-ajuda que me dá um desgosto danado colocá-la num texto meu, mas como evitar? É uma das coisas que melhor faço na vida! Quando não tenho onde ir, visito meus sonhos ou invento um novo. As vezes meu marido, meus pais ou meus amigos dão risada e me chamam de louca, mas eu sei que quase sempre eles adoram fazer parte da minha loucura – agora é a vez de vocês, sejam bem-vindos!

Fotos que tirei hoje, dos meus cantinhos preferidos da fazenda…

SantaElisa2 Im a dreamer, but Im not the only one (J. Lennon)

O Dia Que Conheci João Ubaldo Ribeiro

06
JUL
2012

Pequenos Grandes Prazeres

João Ubaldo

Entre todas as formas que eu poderia batizar o dia de ontem, decidi que deveria ficar conhecido como “O Dia Que Conheci João Ubaldo Ribeiro”. Ele não me conheceu, mas eu o vi (e ouvi) bem de perto e pra mim isso basta. Fomos à FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, eu e a mulher do meu sogro (não sei se existe uma terminologia certa para “mulher do sogro” quando esta não se trata da sua sogra, mas eu prefiro me referir a ela apenas como uma amiga querida). Há muito tempo tenho vontade de visitar o evento e coloquei na cabeça que deste ano não passava! Fizemos bate-volta até Paraty e o dia foi tão bom, mas tão bom, que eu cheguei em casa sem vestígios de cansaço.

A FLIP já se tornou um dos principais festivais literários do mundo, com a presença de autores nacionais e internacionais premiadíssimos que enchem as ruazinhas centenárias e charmosas de Paraty com muita cultura, muitos debates literários, muitas ideias e estórias – um ar delicioso de respirar! Fiquei surpresa com o caráter popular do evento, imaginei que encontraria um pouco da arrogância velada que paira em boa parte dos eventos de arte, mas errei feio! Todo mundo muito à vontade, pessoas das mais diversas ‘tribos’, muitas crianças das escolas locais, artistas alternativos (tinha um vendendo declamação de poemas por R$ 1,00 – com cardápio de poesias e tudo!) e até uma manifestação pública de uma galera de Trindade, praia-paraíso-em-crise ali de perto. Muito rapidamente, me senti em casa!

Chegamos a Paraty por volta das 10h30 e conseguimos ingressos para a tenda do telão que projetaria em tempo real a mesa composta por João Ubaldo RibeiroWalcyr Carrasco e medição de Edney Silvestre, cujo tema era “Cem Anos de Jorge Amado”. A conversa entre eles foi espetacular, divertida, inteligente, curiosa. E pro João Ubaldo tenho apenas uma definição: extraordinário. Ele e Jorge Amado foram amigos muito próximos e ele foi generoso em dividir com a platéia momentos de convívio e intimidade que jamais conheceríamos de outra forma. Teria ficado o dia inteiro ali, ouvindo aqueles três. Estava me sentindo como um estilista iniciante num desfile da Prada ou um estudante de gastronomia diante do estrelado Ferran Adrià. Puro deslumbramento!

Almoçamos uma deliciosa peixada baiana no Restaurante do Hiltinho, acompanhada de uma merecida taça de prosecco geladinho. O brinde foi em honra daquele exato instante e, claro, de João Ubaldo. Pequenos grandes prazeres.

A mesa da tarde foi composta por Enrique Vila-Matas, escritor espanhol e pelo chileno Alejandro Zambra, com mediação do jornalista e editor Paulo Roberto Pires. O tema era interessante, mas depois do que assistimos pela manhã e de duas taças de prosecco, deu sono. Recuperamos as energias vasculhando os milhares de títulos da Livraria da Vila, montada exclusivamente para o evento. Eu comprei, não por acaso, “A Visita Cruel do Tempo”, da premiada Jennifer Egan. Não sei bem o que vou encontrar (tenho um pouco de medo de livros aclamados pela crítica!), mas divido com vocês depois, se valer a pena.

Última parada para um sorvete, uma xícara de café e estrada. Voltamos felizes da vida e com assunto pro percurso inteiro!

Fotinhos pra ilustrar…

FLIP1 O Dia Que Conheci João Ubaldo Ribeiro

FLIP3 O Dia Que Conheci João Ubaldo Ribeiro

Infância

03
JUL
2012

Inspirações

Gaveta

Percebo uma relação muito desproporcional entre o tempo que a infância dura e o peso que ela tem para o resto da nossa vida. São uns 10 ou 11 anos que vão servir de alicerce pra tudo o que vier pela frente. Um ano na vida da criança é uma eternidade, a gente cresce acreditando nisso e depois se assusta quando vê que 12 meses, na verdade, são muito pouco, a infância distorceu nossa noção de tempo pra sempre. Eu tive uma infância muito boa, lar estruturado, pais cuidadosos e presentes, três irmãs queridas (que, confesso, amo mais hoje do que amava na época…), férias na fazenda dos avós, primos, viagens e alguns passeios deliciosos! Não lembro de tudo, mas lembro de muita coisa boa.

Hoje foi um dia pra relembrar. Acho que deve ser comum a gente querer mostrar para os filhos as mesmas coisas que viu ou fez quando tinha a idade deles e que ficaram guardadas na “gaveta das lembranças gostosas”. Levei as crianças ao Instituto Butantan, em São Paulo e no caminho tentei fazer as contas pra saber há quanto tempo meus pais tinham me levado lá – considerando que eu era criança, deve ter perto de uns 30 anos! Eu não me lembrava de quase nada, mas sabia que tinha gostado muito do lugar. A única cena vívida na minha cabeça é do meu pai dando um baita susto na minha mãe – ela estava debruçada sobre o peitoril do serpentário, pouco a vontade porque tem horror a cobra, quando meu pai pinçou o calcanhar dela com a ponta dos dedos – ela soltou um berro e ele chorou de tanto de rir (nós também!). Contei esta passagem pras crianças hoje, no caminho de ida e, adivinha? Pregaram a peça uns nos outros durante a visita toda! Bom, muito bom.

Minha filha está vivendo os últimos anos da sua infância e, recentemente, me fiz uma pergunta inquietante: será que estou fazendo tudo que posso pra que a “gaveta das lembranças gostosas” dela também fique cheia e bem pesada? A culpa teimosa que mora no coração das mães que trabalham fora me deixa na dúvida, mas, sim, acho que estou fazendo o melhor que posso. Temos momentos deliciosos guardados e registrados em muitos álbuns de fotos (uma das minhas paixões). Por via das dúvidas, fiz uma listinha de mais algumas coisas que precisamos fazer juntos enquanto ainda tenho a infância deles a meu favor, coisas que só se faz enquanto se é criança (ou na companhia delas). Preciso correr, porque o ano, como bem sabemos, dura bem menos do que um ano.

O próximo item da lista é um acampamento no quintal, com direito à fogueira e marshmallows derretidos – aguardem relatos!

Butantan21 Infância

linha2 Infância

  • Instituto Butantan
  • Av. Vital Brasil, 1500 – Butantã – São Paulo/SP
  • Funciona de terça a domingo, das 9 às 16h30
  • Ingressos: adulto R$ 6,00 / crianças acima de 7 anos R$ 2,50 / crianças até 7 anos não pagam

A Subida

02
JUL
2012

Inspirações

Driving

Hanna Montana, Justin Bieber, Selena Gomez, Miranda Cosgrove e tantas outras estrelas das constelações Disney e Nickelodeon entraram na minha vida sem serem convidadas, mas… devo confessar, eu gosto. Sempre assisto com meus filhos o seriado iCarly, por exemplo, e quando dou risada (acho engraçado mesmo, o Spencer é impagável!) os olhinhos deles brilham orgulhosos por verem a mãe curtido o programa que eles escolheram assistir, entro no mundinho deles e sou muito bem-vinda por lá!

Virei tiete do Justin Bieber depois do filme Never Say Never (ele bota os Menudos e o Dominó no chinelo!) e me emocionei duas vezes no filme da Hanna Montana. A história mostra um bonito resgate de valores, a importância da família, o respeito ao outro e a autenticidade libertadora da vida simples – um ótimo gancho pra abordar estes assuntos com as crianças tomando um sorvete, depois do cinema.

Sempre vai ter uma oportunidade pra assistir a um bom filme de gente grande ou pra voltar a seguir novela, principalmente quando as crianças não forem mais crianças, então aproveito pra entrar na onda delas enquanto posso e trato de decorar nomes e conexões de todos os personagens, pra não dar nenhum fora.

Faz uns 2 anos que tem um CD da Hanna Montana/Miley Cyrus (para os leigos: elas são mesma pessoa) dentro do meu carro e já decorei a letra de várias músicas. A minha preferida é a faixa 8 – The Climb, que é a penúltima canção do filme. A letra fala de coisas que passaram a fazer muito sentido pra mim de uns tempos pra cá – em resumo: a vida não pára pra gente viver, o dia certo pra realizar nossos sonhos não existe, passamos muito mais tempo subindo a montanha do que aproveitando a vista lá de cima, portanto, a subida tem que ser a melhor parte!

Na quarta-feira passada, quando dirigia sozinha pro meu curso em São Paulo, a estrada estava muito linda por causa da cor do sol e me lembrei que há tempos não ouvia esta música. Coloquei o CD, aumentei o volume e cantei bem alto com a Miley, fazendo gestos, caras, bocas e tudo mais, certa de que estava abafando (manda internar). Quando acabou, coloquei de novo e continuei cantando, em altos brados (acho que acontecia uma pequena catarse ali!). Fiz isso pela terceira vez. Pronto. Meu dia já estava ganho e  meu interior agradecido por mais este trecho da subida.

Nossa, quantos anos eu tenho mesmo?

linha1 A Subida

Para os que não conhecem a música e ficaram curiosos, clique aqui pra ver a letra e tradução. Abaixo vai o trecho do filme (aumentem o volume!):

FOTO: www.thisisglamorous.com

Para sentir

29
JUN
2012

Inspirações

nada

casal2 Para sentir

O poema aí embaixo é da Adélia Prado, e se chama “Casamento”. Fui apresentada a ele nesta semana, mas já devo ter lido umas 10 vezes. Ele não tem rimas, nem frases elaboradas, é, na verdade, de uma simplicidade desconcertante. O que me tocou neste poema foi a forma mágica como a autora, sem nem usar a palavra amor, conseguiu deixar o sentimento tão presente pairando sobre o texto. Lindo demais, um poema para sentir e não para ler, feito da arte mais refinada.

Talvez, numa leitura atenta e sensível, você consiga encontrar, escondida no poema, a sutil diferença entre um casamento e um casamento feliz.

linha5 Para sentir

Casamento

  • Há mulheres que dizem:
  • Meu marido, se quiser pescar, pesque,
  • mas que limpe os peixes.
  • Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
  • ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
  • É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha;
  • de vez em quando os cotovelos se esbarram,
  • ele fala coisas como “este foi difícil”
  • “prateou no ar dando rabanadas”
  • e faz o gesto com a mão.
  • O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
  • atravessa a cozinha como um rio profundo.
  • Por fim, os peixes na travessa,
  • vamos dormir.
  • Coisas prateadas espocam:
  • somos noivo e noiva.

Adélia Prado

linha6 Para sentir

Desejo um ótimo final de semana pra vocês, meus queridos, com muitas coisas prateadas espocando no ar…

 

FOTO (cinemagraph): From Me To You 

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