Coragem

10
AGO
2012

Descobertas

Coracao

Ontem, conheci a etimologia da palavra coragem, vem do latim (cor + -atĭcum): associação entre a palavra latina cor, que significa coração, e o sufixo latino -atĭcum, que é usado para indicar a ação da palavra que o precede. Coragem, portanto, significa “aquilo que fazemos com o coração”.

Descobri que, por 37 anos, usei a palavra coragem de maneira equivocada, querendo dar-lhe o sentido de destemor (des-, com significado de “oposto” e “temor”, que vem, do latim timor, “receio, medo”. Ou seja, é a qualidade daquele que não teme) ou bravura (do italiano bravo, “atrevido, audacioso, bravo”). Sinto que insultei a palavra coragem por todos estes anos! Entendi que ela é muito mais nobre e bonita do que o uso descuidado nos faz supor. Não é à toa que temos tantas palavras na nossa língua (o Aurélio apresenta cerca de 500 mil), os sinônimos não são tão sinônimos assim, existem nuances que a gente, infelizmente, desconhece.

Pensando bem, o que faz alguém saltar de paraquedas não é a ausência do temor, é um coração curioso. O que faz uma mãe esconder o filho atrás de si numa situação de perigo não é a ausência do temor, é um coração apaixonado. O que nos compele ao risco de realizar um sonho não é a ausência do temor, é só um coração que grita muito alto, como o meu.

Durante os dias em que escrevia meu relato sobre o pânico e principalmente depois que terminei, recebi algumas dezenas de mensagens carinhosas, quase todas destacando “minha coragem” em tornar pública aquela história. Achei curioso porque, desconhecendo o real significado da palavra coragem até então, não me sentia corajosa por escrever tudo aquilo, não foi um gesto que me exigiu bravura ou destemor. Fiz porque acreditava que poderia ser útil para alguém.

Ontem à tarde, conversando com uma pessoa muito sábia e vivida, comentei sobre minha surpresa com estas mensagens e foi então que ela me explicou o que, de fato, significava coragem. Me apaixonei instantaneamente por esta palavrinha que sempre achei tão batida! Agradeço o carinho de todos vocês e, sim, aceito os elogios, foi mesmo um ato de muita coragem contar aquela história. Mais do que da minha memória, ela saiu lá de dentro do meu cor.

Divisor de Águas (Parte Final):

08
AGO
2012

Inspirações

Livre

O primeiro ano da terapia foi, certamente, o mais difícil e o remédio me permitiu atravessar este período de maneira consciente, mas menos vulnerável ao desequilíbrio químico que tanto castigou o meu organismo. E a oração era o meu colchão, era a certeza confortante de que se eu caísse, ainda teria um colo protetor para me segurar.

Depois de algumas semanas de terapia, a A. sugeriu que eu experimentasse o divã. Experimentei e até hoje sento lá. O divã te dá uma liberdade incrível pra se expressar, não tem ninguém avaliando seu rosto e nenhum rosto pra você avaliar, então é mais fácil se concentrar só nos seus pensamentos e pronto. Eu me perco um pouco na cronologia das coisas, na ordem das descobertas e aprendizados, mas lembro bem da A. ter me explicado que nosso trabalho inicial seria de desconstrução. Era preciso eu entender quem eu era de fato – esta é base da terapia – precisaríamos derrubar a estrutura frágil e comprometida que me sustentava, para então aplainar o terreno, criar pilares sólidos e começar a reconstrução de mim mesma, num trabalho longo, por vezes dolorido e muito, muito bonito.

Posso dizer que o primeiro ano foi uma derrubada só! Cada sessão era como golpes daquelas bolas de concreto gigantes que são lançadas contra as paredes de um edifício que precisa ser derrubado. O pior de tudo é que, muitas vezes, eu me via entre o edifício e a bola gigante, sacudindo meus braços desesperadamente, pedindo que o edifício fosse poupado, tentando proteger aquela estrutura que, apesar de comprometida, era a que eu conhecia e acreditava. Várias vezes, depois de ouvir a A. fazer alguma observação a meu respeito (ela sempre observa, nunca afirma), eu pensava comigo: “essa mulher tá louca!”, acontece que muuuuuitas vezes, quando eu baixava a guarda e procurava refletir sobre aquelas observações, percebia que a louca era eu. E então, de todas as coisas incríveis que aprendi com a terapia, talvez a mais preciosa tenha sido esta: “quando alguém discorda de mim, pode ser que eu não esteja com a razão”. Nossa, este aprendizado foi (e é!) precioso!

Ao contrário do que muita gente pensa, a terapia bem feita não cria relação de dependência com o analista. Eu, pelo menos, nunca senti assim. Você estabelece uma relação de confiança e desenvolve um trabalho a quatro mãos (sendo que é a sua mão que vai pra massa!). O analista joga luz no seu conflito, deixando-o mais visível para você resolver. A terapia me deu a abençoada oportunidade de ver a vida com mais clareza e eu comecei a pegar gosto por isso, passei a dar o devido peso para as coisas, amadureci, descompliquei, me apaixonei pela incrível capacidade humana de moldar o próprio ser e evoluir. Comigo tem sido assim. O professor ensina, mas o mérito de uma boa nota é sempre do aluno, se é que vocês me entendem.

Depois de um ano e alguns meses, queria engravidar novamente, desta vez com planejamento. Psicóloga e psiquiatra estavam seguras em afirmar que eu poderia ir adiante, que já estava pronta pra tirar a medicação, de forma lenta e gradual e, em três meses, tinha parado com a sertralina. Outros três meses e eu estava grávida de um garotão. Continuava freqüentando o grupo de oração e duas sessões semanais de terapia.

Depois que meu filho nasceu, deixei o grupo por causa das demandas naturais de um recém-nascido, fazia minhas orações em casa, com a mesma intensidade. A terapia, no entanto, estava a pleno vapor, parei apenas por um mês. Estávamos alcançando a fase de “aplainar o terreno”, eu já tinha entendido muita coisa sobre o meu problema, já conseguia encarar o monstro de frente e isso o fazia diminuir de tamanho, ser menos assustador. Ano após ano, fui entendo as ameaças que este monstro oferecia, então ele foi ficando menor e menor ou talvez mais distante, ele até ganhou um nome, chama-se medo. Continuo consciente de que ele existe, faz parte de mim e de todo ser humano, mas estamos convivendo civilizadamente há vários anos. Quando ele dá de querer crescer, olho bem pra ele e digo: “te aquieta!”, tem hora que ele obedece rápido, tem vezes que dá mais trabalho, mas tem estado sob controle. Aprendi a mostrar os dentes pra ele também.

Meu filho completou cinco anos em junho passado, nunca mais tomei remédios, mas mantenho a terapia uma vez por semana. Agora não mais pelos mesmos motivos que me fizeram iniciar este processo, mas porque gosto de ter um momento só meu, pra pensar nas minhas coisas, pra ser questionada e contrariada e ter a rica oportunidade de rever meu ponto de vista, ainda que seja para mantê-lo. Há algum tempo, a A. me perguntou se eu não pensava em parar, que talvez fosse hora de caminharmos para a alta. Eu respondi que não, não quero alta, sei que viveria bem sem a terapia, mas sinto que ainda há muito pra descobrir, talvez nunca se esgote. Somos uma obra inacabada e isso é mágico! A gente sempre vai poder dar novas pinceladas, novos formatos.

A história não tem fim porque eu ainda estou viva, mas chegamos a este presente momento e eu quero agradecer por seu interesse em acompanhar esta epopéia até o final. Foi muito bom escrevê-la. Foi bom olhar pra trás, repassar os detalhes, registrar minha travessia. E olha que legal este trecho de um livro que estou lendo justamente nesta semana:

“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que passou”.

(Do livro “Risíveis Amores”, de Milan Kundera)

E então eu entendo que se eu não tivesse passado por tudo o que passei, talvez atravessasse a vida inteira vivendo na superfície, sem acesso a todas as belezas que encontrei no íntimo de mim. Teria sido um desperdício. Passei por isso para ser melhor. Deus sabe o que faz.

linha1 Divisor de Águas (Parte Final):

Obrigada, marido! Obrigada, mãe e pai! Obrigada, A.! Obrigada, Pai do Céu! Se a minha vida fosse um livro, a dedicatória seria para vocês.

Divisor de Águas (Parte IV): “Setas”

07
AGO
2012

Inspirações

Prayer

Um certo dia, quando percebi que o pânico me tinha nas mãos de novo e que eu não poderia mais com ele, minha alma, exausta, deitou-se no chão, diante dos pés de Deus, e suplicou mais ou menos assim: “Pai do Céu, eu não acredito que o Senhor me queira assim, eu tenho certeza absoluta que existe um grande propósito pra mim nesta vida e não há de ser viver assim, com medo de mim mesma. Eu só posso acreditar que há uma razão muito importante pra eu estar passando por isso. Então eu te peço, com toda fé que existe em mim, permita que eu entenda qual é essa razão e encontre o caminho pra eu voltar a ser quem eu era”. Repeti esta súplica por muito tempo e Ele me atendeu em tudo, menos em permitir que eu voltasse a ser quem eu era. Eu sou infinitamente melhor.

Dias depois, fui buscar ajuda na homeopatia, acreditava que poderia me acalmar. O médico, que tenho como amigo hoje, me sugeriu buscar a terapia pra que eu pudesse entender a origem de tudo aquilo. Ele me deu o telefone de uma psicóloga com a recomendação de que era “uma das mais sérias e competentes” profissionais da cidade. Tinha resistências sobre o assunto naquela época, mas agendei uma consulta mesmo assim. Olhando pra trás, vejo que esta foi a primeira seta que Deus me apontou.

Minha psicóloga mantém em sigilo o nome dos pacientes que atende, por isso, em respeito à sua privacidade, vou chamá-la apenas de A. (A da inicial do seu nome, A de anjo, A de abençoada, A de a melhor de todas). Cheguei receosa ao seu consultório, vi o divã logo de cara e pensei “ali eu não sento de jeito nenhum!”, quanta ignorância. Resumi toda minha história pra ela, desde a primeira crise de pânico, 4 anos antes, até as mais recentes e disse que queria me curar, sem saber que a palavra “cura” não é utilizada no tratamento das doenças psíquicas. Ela percebeu logo que eu não estava nada bem e recomendou que iniciássemos o tratamento com 2 sessões semanais.

Simultaneamente às primeiras sessões de terapia, comecei a freqüentar o grupo de oração Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que se reunia todas as quintas-feiras, na casa da Yara, outro anjo que mora aqui na Terra. O grupo faz parte do movimento da Renovação Carismática, conhecido pelo fervor de suas orações, pelos bonitos testemunhos de fé e transformação. Eu precisava daquilo, precisava ver milagres acontecendo, precisava sentir o contato físico da presença de Deus. Nossa, e como eu senti! Me emociono só de pensar, tamanha a minha gratidão àquelas pessoas. Foi a segunda seta.

Os primeiros meses (às vezes, anos) de uma terapia bem feita costumam ser muito difíceis, muito intensos e doloridos. Pra mim, que já comecei o processo fragilizada, foi di-fi-cí-li-mo. Eu ficava muito tensa e ansiosa, porque ao contar o que se passava comigo, eu revivia e o corpo, que não distinguia a realidade da lembrança, sentia tudo de novo. Algumas sessões eram, na verdade, como pequenas crises de pânico, tamanho o volume de adrenalina que corria no sangue. Minha irmã, que fazia Psicologia na época, dizia que isso era bom, era sinal de que a terapia estava surtindo efeito. Putz, valeu mesmo, hein!?

Depois de algumas semanas, a A. percebeu que a terapia estava sendo muito custosa pra mim e sugeriu, com todo jeito, que entrássemos com algum medicamento pra me ajudar durante esta fase inicial. Eu fiquei chateada, afinal estava ali justamente pra não precisar mais disso. Eu não queria ficar anestesiada do sofrimento como fiquei com o Anafranil; aquele tempo, apesar de bom, tinha sido uma ilusão. Ela insistiu dizendo que o remédio faria menos mal pro meu organismo do que toda aquela ansiedade, que seria temporário e que um bom psiquiatra indicaria a melhor medicação pra minha situação, pra diminuir a ansiedade sem me tirar a percepção do problema. Desta vez, a recomendação médica foi a sertralina (este é o princípio ativo, não me lembro mais o nome do remédio). De fato, as crises de ansiedade cessaram, mas o problema continuava presente e eu queria resolver. Foi a terceira seta.

Durante pouco mais de um ano, este foi o tripé que me sustentou: a terapia, a oração e a sertralina. Aos poucos, bem devagar, fui recuperando a confiança em mim mesma, a alegria de viver, a certeza de que estava no caminho certo, absolutamente certo se considerarmos quem foi fincando as setas, não é?! Quanta gratidão!

O mais bonito estaria por vir. Conto amanhã!

linha Divisor de Águas (Parte IV): Setas

I will follow Him…

(só pra alegrar a tarde!)

Divisor de Águas (Parte III): “Anafranil”

06
AGO
2012

Inspirações

Remedio

Meus pais moravam numa fazenda, um lugar muito bonito e silencioso, que antecipava a chegada dos visitantes por causa do barulho do motor do carro, de maneira que quando apontamos na porteira já estavam todos – meus pais e minhas irmãs – nos aguardando do lado de fora da casa. Meu pai abriu a porta do carro e antes  mesmo que eu levantasse, falou: “que magreza é essa, filha?!”, eu o abracei forte, comecei a chorar e respondi: “é que eu não consigo comer, pai”.

Minha mãe já estava com a consulta no psiquiatra marcada para o dia seguinte. Eu iria no mesmo médico que cuidava da minha prima e da minha tia, numa cidade próxima, o nome dele era Dr. Adolfo. Durante as quase 24 horas que antecederam a consulta, minha mãe se esforçou pra deixar tudo mais leve, pra tentar me convencer de que o remédio é melhor do que a doença e que eu ficaria boa em poucas semanas.

O Dr. Adolfo foi um anjo na minha vida. Ele me recebeu com carinho, como quem cuida de uma criança assustada. Sentou-se próximo a mim (e não atrás de uma mesa) e falou com a voz muito mansa: “Renata, está acontecendo um desequilíbrio químico dentro do seu organismo, é um problema físico para o qual, felizmente, já existem medicamentos muito bons. Se você estivesse diabética, teria que tomar insulina, se tivesse gastrite, teríamos que enchê-la de remédios para o estômago, se tivesse hipo ou hipertireoidismo, teríamos que regular com hormônios, certo?”, “certo”, “o grande problema dos remédios que atuam nas doenças psíquicas é o preconceito; quando a doença é ‘na cabeça’ a gente acha que tem que dar conta sozinho. Agora, me diga, você conseguiria dar conta sozinha de uma tireóide desregulada?”. Eu comecei a rir, senti algum alívio e perguntei: “Doutor, mas eu posso tomar o Anafranil, que é o mesmo remédio que minha mãe toma?”, o Dr. Adolfo, sensível como era, percebeu a ordem psicológica do meu pedido estapafúrdio e respondeu: “existem drogas mais modernas que o Anafranil, Renata, mas podemos tentar pra ver se você se adapta bem a ele”. E assim foi.

Comecei a tomar o remédio no dia seguinte. Lembro com precisão do instante em que coloquei o primeiro comprimido na boca – nossa, eu fiz um drama! Chorei, inconformada. Quanta bobagem. No final da primeira semana, conforme previsto, não tinha sentido nenhuma melhora e minha mãe veio pra casa comigo. No final da segunda semana, voltei a ter apetite e fui melhorando um pouquinho a cada dia. Ao término do primeiro mês, minha vida estava cor de rosa e em 40 dias eu estava embarcando num cruzeiro, feliz da vida (dá pra acreditar?!). O único efeito colateral indesejado foi uma queda na libido, mas eu e o meu marido conversávamos bastante sobre o assunto e acabamos lidando bem com isso. O tempo previsto de tratamento era de 1 ano, mas no meio do caminho o Dr. Adolfo sofreu um AVC muito grave e não pôde mais clinicar. Uma perda grande para a Psiquiatria, senti muito.

Ao completar 1 ano de tratamento, meu novo médico, Dr. Luís Antônio, mencionou que talvez fosse hora de começar a diminuir a dose da medicação até tirar o Anafranil de vez da minha vida. Eu, que costumo ser abusivamente atuante nas minhas consultas médicas, perguntei se poderíamos esperar só mais um pouquinho, pois eu estava programando uma viagem pra dali 5 meses e me sentiria mais segura se ainda estivesse tomando o remédio, ao que ele concordou.

Acontece que, depois de algumas semanas, descobri que estava grá-vi-da. Sabe o olho do furacão? Então, minha cabeça foi parar lá no meio. Nosso plano era esperar mais um ano ou dois anos pra ter o primeiro filho, foi um susto! Voltei ao psiquiatra e ele disse que precisaríamos parar o remédio. Na verdade, não existiam riscos comprovados ao bebê, tem muita gente que toma remédios durante a gravidez, mas como eu estava bem, não era prudente arriscar, claro. Fui parando aos pouquinhos e em um mês parei totalmente.

Passei muito mal nos primeiros meses, não por falta do remédio, mas pelos hormônios da gravidez mesmo. Eu abria a geladeira e pensava: “humm, o que será que eu vou vomitar hoje?”. Mas, depois do quarto mês, tudo correu muito bem. Minha filhota nasceu fofa e saudável, não tive nem vestígios de depressão pós-parto – muito pelo contrário, me sentia no Céu, feliz da vida com aquela criaturinha nova na nossa casa! Foi um ano de descobertas e de uma paixão intensa pela minha filha.

Tudo-ia-bem-até-que… pouco tempo depois da pequena completar 1 aninho, comecei a sentir as baforadas quentes daquele monstro no meu pescoço, de novo. E desta vez, ele foi cruel. Lembra do cano velho que abre novos buracos quando tapamos os antigos? O Anafranil tapou os buracos muito bem durante todos aqueles meses, mas não consertou o cano e a pressão continuava silenciosa e forte lá dentro.

Desta vez, não foram crises de pânico inesperadas. Eu tinha, na verdade, o que se pode chamar de pensamentos obsessivos. Passavam coisas horríveis pela minha cabeça e um medo aterrorizador de que o pânico me fizesse perder o controle sobre mim mesma. Eu olhava pra minha filha, a via tão indefesa e aquilo, simplesmente, me apavorava. Foram alguns poucos meses lutando contra esses pensamentos indesejados, mas, desta vez, decidi procurar ajuda muito antes.

Digamos que cheguei no meio desta história. Em breve, voltaremos a falar de outros assuntos mais agradáveis aqui no blog, prometo, mas, já que comecei, preciso terminar. A boa notícia é que os capítulos seguintes são a parte bonita desta história. É a fase do crescimento, da reconstrução, hora de consertar esse cano de vez!

Até mais!

Divisor de Águas (Parte II): “Solidão”

03
AGO
2012

Inspirações

Solidao

Depois do retorno de Florianópolis, imaginei que não teria muito mais com o que me preocupar, não tinha nenhuma viagem de avião à frente e podia esquecer o episódio do pânico. Achei que tivesse pegado o touro pelo chifre e posto no seu devido lugar, mas na verdade tinha dado apenas um “olé” nele, e o bicho voltou bravo. O problema estava instalado dentro de mim e como num cano frágil e deteriorado, quando você tapa um buraco, a pressão da água dá um jeito de abrir outro. Então, depois de algumas semanas, comecei a sentir a angústia do pânico me rondando outra vez, encanei que tinha algum problema no coração, porque o mal-estar sempre começava ali, no espaço apertado que a angústia e o coração dividem dentro do peito. Procurei um cardiologista, fiz todos os exames que ele podia me pedir pra tentar me tranqüilizar e provar que eu não tinha nenhuma cardiopatia: eletrocardiograma, ecocardiograma, teste de esforço, uma dezena de exames de sangue. Nada, tudo normal. O cardiologista foi muito paciente e sensível ao meu problema e até me ensinou um exercício de respiração que ajudava a atenuar esta sensação de aperto no peito. Ajudava, mas não resolvia.

Durante 10 meses, tive uns 10 ou 12 ataques de pânico fortes e no restante do tempo permanecia num estado constante de alerta e tensão, com muito medo de uma nova e inesperada crise, medo do medo. As crises passaram a não ter relação com nada específico, elas simplesmente vinham e me aterrorizavam. Numa das vezes, comecei a ter uma crise forte fazendo compras no Carrefour, larguei o carrinho cheio no meio do corredor e corri pra casa. Passei a ter medo de fazer compras sozinha. Tive uma outra crise em São Paulo e fiquei alguns anos sem ir dirigindo sozinha pra lá. Os médicos e psicólogos dizem que o cérebro associa os lugares e as situações em que você passou mal com o perigo e, de fato, pode acionar uma nova crise se a situação se repetir, como se você já estivesse pré-disposto ao ataque. Isso faz com que as dimensões do seu mundo se apertem à sua volta, até o ponto que você se isola dentro de casa, dentro de si.

Durante os primeiros 5 meses, fiquei calada. Não procurei ajuda e não contei pra ninguém, nem para o meu marido. Um comportamento ignorante que me custou muito caro. Eu não queria assumir o problema, me viam como a “perfeitinha” da família, a “perfeitinha” da turma e não queria deixar este lugar, não podia ter problemas psíquicos, não podia mostrar minha fraqueza, acreditava que daria conta do monstro sozinha. Então comecei a ter insônia, uma tristeza profunda e constante, total falta de apetite e a assombração de estar enlouquecendo. Numa noite insone, madrugada alta, comecei a ter mais uma crise e desta vez, graças a Deus, não agüentei o desamparo ao qual me impus nos meses anteriores e acordei meu marido. Disse que estava passando muito mal, que já tinha sentido aquilo algumas vezes, que não sabia bem o que era, que deveria passar em alguns minutos e que, por favor, me abraçasse forte. A crise passou e eu pedi que ele esperasse eu dormir. Nos dias seguintes, conversamos sobre o assunto e disse que estava com Síndrome do Pânico – a esta altura, já tinha pesquisado os sintomas e o quadro fechava direitinho (autodiagnóstico, não recomendo!), além disso, já tinha acompanhado casos semelhantes na família. Disse que o tratamento deveria envolver medicamentos, mas que eu não queria tomar. O fato de ter aberto a situação para ele me ajudou, mas muito pouco, porque eu sentia vergonha do que estava passando e só tocava no assunto quando estava à beira de uma nova crise. Eu tinha medo dele deixar de gostar de mim. Nossa, quantos medos, que dias horríveis.

A vida foi ficando insuportável. Não tinha disposição pra nada, estava exigindo muito de mim, mas não cedia. Tentei tratamento com acupuntura e alguns medicamentos orientais fitoterápicos, não resolveu. Já não conseguia ficar sozinha em casa. Uma noite, quando meu marido estava freqüentando um curso, fui pro shopping, ficar dando voltas à toa, pro tempo passar. O shopping fechava às 22h e o curso dele terminava só às 22h30, assim fiquei dando voltas no quarteirão por 30 minutos, até vê-lo sair; segui seu carro até em casa e fiz parecer coincidência o fato de chegarmos juntos ao portão. Sentia uma solidão profunda, daquelas que a gente só sente quando já não pode contar consigo mesmo.

No dia seguinte (ou talvez na semana seguinte, já não lembro bem da ordem das coisas), me arrastei para a aula de tênis que fazia no clube, bem cedinho, antes do trabalho. Depois de uns 15 minutos de aula, uma nova crise começava a se instalar. Foi o momento em que me rendi. Pedi desculpas ao professor, falei que não me sentia bem e fui pra casa, aos prantos. Por obra de Deus, meu marido ainda não tinha saído pro trabalho e eu caí no colo dele, chorando muito, dizendo que não agüentava mais, que eu não estava conseguindo mais lidar com aquilo e que precisava de ajuda. Fiz o que pra mim, naquele momento, era assumir uma grande derrota – deixei a imagem que os outros faziam de mim à própria sorte e pedi: “liga pra minha mãe, pede pra ela vir pra cá, ela vai saber o que fazer”. Ele estava assustado, ligou pra ela (que morava a 650 km de nós) e contou o que estava acontecendo. Minha mãe ficou entre a cruz e a espada, porque entendia perfeitamente a urgência do meu problema e a intensidade da minha dor, só que minha irmã mais nova tinha acabado de fazer uma lipoaspiração, o médico tinha dado uma barbeirada e ela estava anêmica, precisando aplicar ferro na veia diariamente, e estava sob os cuidados da minha mãe. Ela falou: “traz a Rê pra cá, por favor”. Ele pediu uma semana de férias, eu pedi licença no trabalho e pegamos a estrada no dia seguinte.

Acho que está bom por hoje, né?! Um ótimo final de semana pra vocês!

Divisor de Águas (Parte I): “Iceberg”

01
AGO
2012

Inspirações

Iceberg

Aos 26 anos de idade, minha vida começou a passar (contra minha vontade) por uma grande e sofrida transformação. Tudo o que eu achava que fosse até então, caiu por terra, eu me perdi dentro de mim mesma. A história é longa, mas, particularmente, acho muito bonita (apesar de ainda não ter um final); envolve dor, medo, coragem, muito esforço e fé, persistência, superação, reconstruções e descobertas fascinantes. Acho que vale a pena registrá-la aqui no blog, afinal essa transformação me trouxe até o que sou hoje, remodelou o meu ser, a minha forma de pensar e o sentimento que coloco nos meus escritos. Vou contá-la em partes, para que vocês não se cansem e para que não doa tanto em mim.

Em setembro do ano 2000, eu estava dentro de um avião aguardando a decolagem rumo a Natal/RN, para uma viagem a trabalho. Ficamos parados na pista por mais de 50 minutos, esperando uma tempestade forte passar, chovia granizo. É bom que saibam que o interior de uma aeronave é um dos lugares no Universo inteiro em que eu me sinto mais desconfortável e a decolagem é o ápice do desconforto; detesto, morro de medo. Assim sendo, a longa espera pela decolagem foi torturante e desencadeou um descontrole físico que eu nunca tinha experimentado – minhas pernas tremiam sem controle, as mãos ficaram molhadas, o coração acelerado e o maxilar completamente travado. Depois de algumas horas de voo, o mal-estar se atenuou e eu cheguei ao hotel aparentemente sob controle. Já era tarde, eu dividiria o apartamento com uma amiga do trabalho que, felizmente, já estava lá. Tomei banho, deitei pra dormir e depois de poucas horas de sono (talvez, minutos), fui acordada por uma descarga de adrenalina violenta e involuntária, o tremor voltou, a sudorese também e eu me senti muito, muito mal. Estava tendo meu primeiro ataque de pânico.

Naquela noite, eu liguei pra minha mãe, que com certa calma me falou: “filha, agora você só precisa de um calmante, depois a gente descobre o que é”. No fundo ela (e eu) já desconfiava do que estava acontecendo, aqueles sintomas não eram desconhecidos, várias pessoas da minha família têm distúrbios de ansiedade em diversos níveis e formas: pânico, TOC, depressão, bipolaridade… ela, inclusive. Consegui o calmante (o que daria uma outra história…) e pude dormir. Acordei triste, querendo entender por que aquilo tinha acontecido, mas não senti mais nada nos dias seguintes; voltei pra São Paulo depois de 2 semanas, com apreensão acentuada durante o voo, mas sem os sintomas do pânico.

Pouco tempo depois, um mês talvez, recebi uma proposta de trabalho bem bacana e oportuna e topei na hora. No novo emprego as viagens a trabalho não seriam necessárias e, portanto, parei de pensar nisso. No entanto, meses depois, combinamos de passar o réveillon em Florianópolis, com uma turma de amigos. Procurei não ficar associando o episódio do pânico com o avião, afinal, como escrevi ontem, viajar é uma das coisas que mais amo fazer na vida e não queria deixar esse “medo besta” atrapalhar as coisas. Bem, o medo não era tão besta assim. Comecei a sentir a adrenalina correr em doses anormais no momento do check-in, quando o atendente informou que o voo estava bem cheio e que não seria possível colocar nossos assentos (meu e do meu marido) juntos, além disso, a aeronave era daquelas pequenas, de 50 lugares, o tempo estava péssimo e decolaríamos de Congonhas! A taquicardia, o tremor e a sudorese começaram na sala de embarque e em pouco tempo eu tinha certeza absoluta que ia morrer (se não por um acidente aéreo, seria por um ataque do coração). Até então, estava calada, tentando enfrentar aquela ebolição dentro de mim. Mas, um minuto antes do que eu pensei ser a morte certa, falei pro meu marido: “eu não quero ir”, “O que? Como assim?! Tá todo mundo esperando a gente lá”, “eu sei, mas eu tô com muito medo, tô passando mal, acho que vou morrer se entrar nesse avião”. Por alguma razão, que faz do meu marido um ser especial, ele não discutiu, não brigou, não fez cara feia. Avisou a equipe da companhia aérea, que levou uns 20 minutos pra desembarcar as malas, e voltamos pra casa. Chorei sem parar durante todo caminho de volta, inconformada com o que eu tinha feito, com uma sensação de derrota misturada com impotência. Continuava chorando ao desfazer as malas, quando resolvi me rebelar de verdade contra aquilo – virei pro meu marido e pedi: “liga pra companhia aérea, por favor, remarca o voo pra amanhã, porque eu vou conseguir uns calmantes e a gente vai pra Florianópolis de qualquer jeito”. Foi o que aconteceu, passei cinco dias deliciosos por lá e tomei calmantes na ida e na volta.

Acontece que esse não é o final da história. Na verdade, é só a pontinha do iceberg, eu ainda precisaria de muito mais coragem do que isso.

Conto mais no próximo post. Até!

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