Divisor de Águas (Parte III): “Anafranil”

06
AGO
2012

Inspirações

Remedio

Meus pais moravam numa fazenda, um lugar muito bonito e silencioso, que antecipava a chegada dos visitantes por causa do barulho do motor do carro, de maneira que quando apontamos na porteira já estavam todos – meus pais e minhas irmãs – nos aguardando do lado de fora da casa. Meu pai abriu a porta do carro e antes  mesmo que eu levantasse, falou: “que magreza é essa, filha?!”, eu o abracei forte, comecei a chorar e respondi: “é que eu não consigo comer, pai”.

Minha mãe já estava com a consulta no psiquiatra marcada para o dia seguinte. Eu iria no mesmo médico que cuidava da minha prima e da minha tia, numa cidade próxima, o nome dele era Dr. Adolfo. Durante as quase 24 horas que antecederam a consulta, minha mãe se esforçou pra deixar tudo mais leve, pra tentar me convencer de que o remédio é melhor do que a doença e que eu ficaria boa em poucas semanas.

O Dr. Adolfo foi um anjo na minha vida. Ele me recebeu com carinho, como quem cuida de uma criança assustada. Sentou-se próximo a mim (e não atrás de uma mesa) e falou com a voz muito mansa: “Renata, está acontecendo um desequilíbrio químico dentro do seu organismo, é um problema físico para o qual, felizmente, já existem medicamentos muito bons. Se você estivesse diabética, teria que tomar insulina, se tivesse gastrite, teríamos que enchê-la de remédios para o estômago, se tivesse hipo ou hipertireoidismo, teríamos que regular com hormônios, certo?”, “certo”, “o grande problema dos remédios que atuam nas doenças psíquicas é o preconceito; quando a doença é ‘na cabeça’ a gente acha que tem que dar conta sozinho. Agora, me diga, você conseguiria dar conta sozinha de uma tireóide desregulada?”. Eu comecei a rir, senti algum alívio e perguntei: “Doutor, mas eu posso tomar o Anafranil, que é o mesmo remédio que minha mãe toma?”, o Dr. Adolfo, sensível como era, percebeu a ordem psicológica do meu pedido estapafúrdio e respondeu: “existem drogas mais modernas que o Anafranil, Renata, mas podemos tentar pra ver se você se adapta bem a ele”. E assim foi.

Comecei a tomar o remédio no dia seguinte. Lembro com precisão do instante em que coloquei o primeiro comprimido na boca – nossa, eu fiz um drama! Chorei, inconformada. Quanta bobagem. No final da primeira semana, conforme previsto, não tinha sentido nenhuma melhora e minha mãe veio pra casa comigo. No final da segunda semana, voltei a ter apetite e fui melhorando um pouquinho a cada dia. Ao término do primeiro mês, minha vida estava cor de rosa e em 40 dias eu estava embarcando num cruzeiro, feliz da vida (dá pra acreditar?!). O único efeito colateral indesejado foi uma queda na libido, mas eu e o meu marido conversávamos bastante sobre o assunto e acabamos lidando bem com isso. O tempo previsto de tratamento era de 1 ano, mas no meio do caminho o Dr. Adolfo sofreu um AVC muito grave e não pôde mais clinicar. Uma perda grande para a Psiquiatria, senti muito.

Ao completar 1 ano de tratamento, meu novo médico, Dr. Luís Antônio, mencionou que talvez fosse hora de começar a diminuir a dose da medicação até tirar o Anafranil de vez da minha vida. Eu, que costumo ser abusivamente atuante nas minhas consultas médicas, perguntei se poderíamos esperar só mais um pouquinho, pois eu estava programando uma viagem pra dali 5 meses e me sentiria mais segura se ainda estivesse tomando o remédio, ao que ele concordou.

Acontece que, depois de algumas semanas, descobri que estava grá-vi-da. Sabe o olho do furacão? Então, minha cabeça foi parar lá no meio. Nosso plano era esperar mais um ano ou dois anos pra ter o primeiro filho, foi um susto! Voltei ao psiquiatra e ele disse que precisaríamos parar o remédio. Na verdade, não existiam riscos comprovados ao bebê, tem muita gente que toma remédios durante a gravidez, mas como eu estava bem, não era prudente arriscar, claro. Fui parando aos pouquinhos e em um mês parei totalmente.

Passei muito mal nos primeiros meses, não por falta do remédio, mas pelos hormônios da gravidez mesmo. Eu abria a geladeira e pensava: “humm, o que será que eu vou vomitar hoje?”. Mas, depois do quarto mês, tudo correu muito bem. Minha filhota nasceu fofa e saudável, não tive nem vestígios de depressão pós-parto – muito pelo contrário, me sentia no Céu, feliz da vida com aquela criaturinha nova na nossa casa! Foi um ano de descobertas e de uma paixão intensa pela minha filha.

Tudo-ia-bem-até-que… pouco tempo depois da pequena completar 1 aninho, comecei a sentir as baforadas quentes daquele monstro no meu pescoço, de novo. E desta vez, ele foi cruel. Lembra do cano velho que abre novos buracos quando tapamos os antigos? O Anafranil tapou os buracos muito bem durante todos aqueles meses, mas não consertou o cano e a pressão continuava silenciosa e forte lá dentro.

Desta vez, não foram crises de pânico inesperadas. Eu tinha, na verdade, o que se pode chamar de pensamentos obsessivos. Passavam coisas horríveis pela minha cabeça e um medo aterrorizador de que o pânico me fizesse perder o controle sobre mim mesma. Eu olhava pra minha filha, a via tão indefesa e aquilo, simplesmente, me apavorava. Foram alguns poucos meses lutando contra esses pensamentos indesejados, mas, desta vez, decidi procurar ajuda muito antes.

Digamos que cheguei no meio desta história. Em breve, voltaremos a falar de outros assuntos mais agradáveis aqui no blog, prometo, mas, já que comecei, preciso terminar. A boa notícia é que os capítulos seguintes são a parte bonita desta história. É a fase do crescimento, da reconstrução, hora de consertar esse cano de vez!

Até mais!

comentários

  1. Ai q saudade do Dr Adolfo…. santo homem…

  2. Alessandro disse:

    Valéria,

    Muito bom ler estas suas palavras. Passo pelo mesmo problema e quando vejo que não sou o único a sofrer com isto me sinto mais normal.

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