Divisor de Águas (Parte II): “Solidão”

03
AGO
2012

Inspirações

Solidao

Depois do retorno de Florianópolis, imaginei que não teria muito mais com o que me preocupar, não tinha nenhuma viagem de avião à frente e podia esquecer o episódio do pânico. Achei que tivesse pegado o touro pelo chifre e posto no seu devido lugar, mas na verdade tinha dado apenas um “olé” nele, e o bicho voltou bravo. O problema estava instalado dentro de mim e como num cano frágil e deteriorado, quando você tapa um buraco, a pressão da água dá um jeito de abrir outro. Então, depois de algumas semanas, comecei a sentir a angústia do pânico me rondando outra vez, encanei que tinha algum problema no coração, porque o mal-estar sempre começava ali, no espaço apertado que a angústia e o coração dividem dentro do peito. Procurei um cardiologista, fiz todos os exames que ele podia me pedir pra tentar me tranqüilizar e provar que eu não tinha nenhuma cardiopatia: eletrocardiograma, ecocardiograma, teste de esforço, uma dezena de exames de sangue. Nada, tudo normal. O cardiologista foi muito paciente e sensível ao meu problema e até me ensinou um exercício de respiração que ajudava a atenuar esta sensação de aperto no peito. Ajudava, mas não resolvia.

Durante 10 meses, tive uns 10 ou 12 ataques de pânico fortes e no restante do tempo permanecia num estado constante de alerta e tensão, com muito medo de uma nova e inesperada crise, medo do medo. As crises passaram a não ter relação com nada específico, elas simplesmente vinham e me aterrorizavam. Numa das vezes, comecei a ter uma crise forte fazendo compras no Carrefour, larguei o carrinho cheio no meio do corredor e corri pra casa. Passei a ter medo de fazer compras sozinha. Tive uma outra crise em São Paulo e fiquei alguns anos sem ir dirigindo sozinha pra lá. Os médicos e psicólogos dizem que o cérebro associa os lugares e as situações em que você passou mal com o perigo e, de fato, pode acionar uma nova crise se a situação se repetir, como se você já estivesse pré-disposto ao ataque. Isso faz com que as dimensões do seu mundo se apertem à sua volta, até o ponto que você se isola dentro de casa, dentro de si.

Durante os primeiros 5 meses, fiquei calada. Não procurei ajuda e não contei pra ninguém, nem para o meu marido. Um comportamento ignorante que me custou muito caro. Eu não queria assumir o problema, me viam como a “perfeitinha” da família, a “perfeitinha” da turma e não queria deixar este lugar, não podia ter problemas psíquicos, não podia mostrar minha fraqueza, acreditava que daria conta do monstro sozinha. Então comecei a ter insônia, uma tristeza profunda e constante, total falta de apetite e a assombração de estar enlouquecendo. Numa noite insone, madrugada alta, comecei a ter mais uma crise e desta vez, graças a Deus, não agüentei o desamparo ao qual me impus nos meses anteriores e acordei meu marido. Disse que estava passando muito mal, que já tinha sentido aquilo algumas vezes, que não sabia bem o que era, que deveria passar em alguns minutos e que, por favor, me abraçasse forte. A crise passou e eu pedi que ele esperasse eu dormir. Nos dias seguintes, conversamos sobre o assunto e disse que estava com Síndrome do Pânico – a esta altura, já tinha pesquisado os sintomas e o quadro fechava direitinho (autodiagnóstico, não recomendo!), além disso, já tinha acompanhado casos semelhantes na família. Disse que o tratamento deveria envolver medicamentos, mas que eu não queria tomar. O fato de ter aberto a situação para ele me ajudou, mas muito pouco, porque eu sentia vergonha do que estava passando e só tocava no assunto quando estava à beira de uma nova crise. Eu tinha medo dele deixar de gostar de mim. Nossa, quantos medos, que dias horríveis.

A vida foi ficando insuportável. Não tinha disposição pra nada, estava exigindo muito de mim, mas não cedia. Tentei tratamento com acupuntura e alguns medicamentos orientais fitoterápicos, não resolveu. Já não conseguia ficar sozinha em casa. Uma noite, quando meu marido estava freqüentando um curso, fui pro shopping, ficar dando voltas à toa, pro tempo passar. O shopping fechava às 22h e o curso dele terminava só às 22h30, assim fiquei dando voltas no quarteirão por 30 minutos, até vê-lo sair; segui seu carro até em casa e fiz parecer coincidência o fato de chegarmos juntos ao portão. Sentia uma solidão profunda, daquelas que a gente só sente quando já não pode contar consigo mesmo.

No dia seguinte (ou talvez na semana seguinte, já não lembro bem da ordem das coisas), me arrastei para a aula de tênis que fazia no clube, bem cedinho, antes do trabalho. Depois de uns 15 minutos de aula, uma nova crise começava a se instalar. Foi o momento em que me rendi. Pedi desculpas ao professor, falei que não me sentia bem e fui pra casa, aos prantos. Por obra de Deus, meu marido ainda não tinha saído pro trabalho e eu caí no colo dele, chorando muito, dizendo que não agüentava mais, que eu não estava conseguindo mais lidar com aquilo e que precisava de ajuda. Fiz o que pra mim, naquele momento, era assumir uma grande derrota – deixei a imagem que os outros faziam de mim à própria sorte e pedi: “liga pra minha mãe, pede pra ela vir pra cá, ela vai saber o que fazer”. Ele estava assustado, ligou pra ela (que morava a 650 km de nós) e contou o que estava acontecendo. Minha mãe ficou entre a cruz e a espada, porque entendia perfeitamente a urgência do meu problema e a intensidade da minha dor, só que minha irmã mais nova tinha acabado de fazer uma lipoaspiração, o médico tinha dado uma barbeirada e ela estava anêmica, precisando aplicar ferro na veia diariamente, e estava sob os cuidados da minha mãe. Ela falou: “traz a Rê pra cá, por favor”. Ele pediu uma semana de férias, eu pedi licença no trabalho e pegamos a estrada no dia seguinte.

Acho que está bom por hoje, né?! Um ótimo final de semana pra vocês!

comentários

  1. lilia disse:

    Ai ,filha ,nem eu que convivi com estorias de Pânico ,imaginava que provocasse tanto sofrimento!!!sofreu calada tanto tempo…e eu aqui sem saber de nada !E pensar que passou por tudo isso só para não dar de fraca!…Louca!!! Reconhecer as próprias fraquezas tambem é um ato de grandeza.

  2. Oi, Re, tudo bem por aí? Muito corajoso escrever sobre isso, acho que quando escrevemos conseguimos organizar ideias, mas admito que precisa de coragem, as vezes não entender é mais confortável. Bjs

    • admin disse:

      Oi, querida! Que bom te ver por aqui! Muitas saudades de vocês…
      Escrever estes textos tem sido um desafio diário, Larissa, mas é a narrativa de um tempo muito importante e decisivo na minha vida e sinto que preciso deixar escrito.
      Um beijo enorme em vocês!

  3. Que coisa ne… num sabia que tinha sido na epoca da minha lipo.. entao eramos 2 sofrendo do mesmo mal, pois foi numa dessas terriveis noites pos lipo que tive uma das minhas piores crises,tinha tanta certeza q estava morrendo, que pedi pro meu pai dormir comigo de maos dadas,pq se eu tivesse indo era pra ele me puxar de volta… dessa forma ele dormiu comigo segurando com bastante forçaa minha mão…. o Transtorno de Panico realmente causa um sofrimento inimaginável… ainda bem que tem tratamento.

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