Divisor de Águas (Parte Final):

08
AGO
2012

Inspirações

Livre

O primeiro ano da terapia foi, certamente, o mais difícil e o remédio me permitiu atravessar este período de maneira consciente, mas menos vulnerável ao desequilíbrio químico que tanto castigou o meu organismo. E a oração era o meu colchão, era a certeza confortante de que se eu caísse, ainda teria um colo protetor para me segurar.

Depois de algumas semanas de terapia, a A. sugeriu que eu experimentasse o divã. Experimentei e até hoje sento lá. O divã te dá uma liberdade incrível pra se expressar, não tem ninguém avaliando seu rosto e nenhum rosto pra você avaliar, então é mais fácil se concentrar só nos seus pensamentos e pronto. Eu me perco um pouco na cronologia das coisas, na ordem das descobertas e aprendizados, mas lembro bem da A. ter me explicado que nosso trabalho inicial seria de desconstrução. Era preciso eu entender quem eu era de fato – esta é base da terapia – precisaríamos derrubar a estrutura frágil e comprometida que me sustentava, para então aplainar o terreno, criar pilares sólidos e começar a reconstrução de mim mesma, num trabalho longo, por vezes dolorido e muito, muito bonito.

Posso dizer que o primeiro ano foi uma derrubada só! Cada sessão era como golpes daquelas bolas de concreto gigantes que são lançadas contra as paredes de um edifício que precisa ser derrubado. O pior de tudo é que, muitas vezes, eu me via entre o edifício e a bola gigante, sacudindo meus braços desesperadamente, pedindo que o edifício fosse poupado, tentando proteger aquela estrutura que, apesar de comprometida, era a que eu conhecia e acreditava. Várias vezes, depois de ouvir a A. fazer alguma observação a meu respeito (ela sempre observa, nunca afirma), eu pensava comigo: “essa mulher tá louca!”, acontece que muuuuuitas vezes, quando eu baixava a guarda e procurava refletir sobre aquelas observações, percebia que a louca era eu. E então, de todas as coisas incríveis que aprendi com a terapia, talvez a mais preciosa tenha sido esta: “quando alguém discorda de mim, pode ser que eu não esteja com a razão”. Nossa, este aprendizado foi (e é!) precioso!

Ao contrário do que muita gente pensa, a terapia bem feita não cria relação de dependência com o analista. Eu, pelo menos, nunca senti assim. Você estabelece uma relação de confiança e desenvolve um trabalho a quatro mãos (sendo que é a sua mão que vai pra massa!). O analista joga luz no seu conflito, deixando-o mais visível para você resolver. A terapia me deu a abençoada oportunidade de ver a vida com mais clareza e eu comecei a pegar gosto por isso, passei a dar o devido peso para as coisas, amadureci, descompliquei, me apaixonei pela incrível capacidade humana de moldar o próprio ser e evoluir. Comigo tem sido assim. O professor ensina, mas o mérito de uma boa nota é sempre do aluno, se é que vocês me entendem.

Depois de um ano e alguns meses, queria engravidar novamente, desta vez com planejamento. Psicóloga e psiquiatra estavam seguras em afirmar que eu poderia ir adiante, que já estava pronta pra tirar a medicação, de forma lenta e gradual e, em três meses, tinha parado com a sertralina. Outros três meses e eu estava grávida de um garotão. Continuava freqüentando o grupo de oração e duas sessões semanais de terapia.

Depois que meu filho nasceu, deixei o grupo por causa das demandas naturais de um recém-nascido, fazia minhas orações em casa, com a mesma intensidade. A terapia, no entanto, estava a pleno vapor, parei apenas por um mês. Estávamos alcançando a fase de “aplainar o terreno”, eu já tinha entendido muita coisa sobre o meu problema, já conseguia encarar o monstro de frente e isso o fazia diminuir de tamanho, ser menos assustador. Ano após ano, fui entendo as ameaças que este monstro oferecia, então ele foi ficando menor e menor ou talvez mais distante, ele até ganhou um nome, chama-se medo. Continuo consciente de que ele existe, faz parte de mim e de todo ser humano, mas estamos convivendo civilizadamente há vários anos. Quando ele dá de querer crescer, olho bem pra ele e digo: “te aquieta!”, tem hora que ele obedece rápido, tem vezes que dá mais trabalho, mas tem estado sob controle. Aprendi a mostrar os dentes pra ele também.

Meu filho completou cinco anos em junho passado, nunca mais tomei remédios, mas mantenho a terapia uma vez por semana. Agora não mais pelos mesmos motivos que me fizeram iniciar este processo, mas porque gosto de ter um momento só meu, pra pensar nas minhas coisas, pra ser questionada e contrariada e ter a rica oportunidade de rever meu ponto de vista, ainda que seja para mantê-lo. Há algum tempo, a A. me perguntou se eu não pensava em parar, que talvez fosse hora de caminharmos para a alta. Eu respondi que não, não quero alta, sei que viveria bem sem a terapia, mas sinto que ainda há muito pra descobrir, talvez nunca se esgote. Somos uma obra inacabada e isso é mágico! A gente sempre vai poder dar novas pinceladas, novos formatos.

A história não tem fim porque eu ainda estou viva, mas chegamos a este presente momento e eu quero agradecer por seu interesse em acompanhar esta epopéia até o final. Foi muito bom escrevê-la. Foi bom olhar pra trás, repassar os detalhes, registrar minha travessia. E olha que legal este trecho de um livro que estou lendo justamente nesta semana:

“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que passou”.

(Do livro “Risíveis Amores”, de Milan Kundera)

E então eu entendo que se eu não tivesse passado por tudo o que passei, talvez atravessasse a vida inteira vivendo na superfície, sem acesso a todas as belezas que encontrei no íntimo de mim. Teria sido um desperdício. Passei por isso para ser melhor. Deus sabe o que faz.

linha1 Divisor de Águas (Parte Final):

Obrigada, marido! Obrigada, mãe e pai! Obrigada, A.! Obrigada, Pai do Céu! Se a minha vida fosse um livro, a dedicatória seria para vocês.

comentários

  1. Mariana disse:

    Rê, me comovi muito com seus relatos. O trajeto foi árduo e sofrido, mas Deus estava ali o tempo todo. Fico feliz pelos frutos que vem colhendo: o auto conhecimento, a descoberta da sua força e fé. Com carinho, Mari.

  2. lilia disse:

    Vc é incrivel filha! Admiro a sua garra e a sua maneira profunda de encarar a vida ;de olhar para dentro de si mesma e se esforçar para crescer apesar de todo o sofrimento que isto acarreta . Parabens ,filha!!!

  3. Rita disse:

    Rê, adoreiiiiiiii, fiquei “emocionada” com a sua coragem de expôr um assunto tão delicado , tão íntimo da sua vida, mas ao mesmo tempo achei muiiiiiiiito bacana; pois muitas pessoas passam por isso mas não tem a coragem que vc teve de “se ajudar”….tenho certeza que vc vai ser a porta de entrada para ajudar muitos que precisam de um empurrãozinho. Beijos.

  4. Ana disse:

    Re, sempre te admirei e agora com certeza ainda muuuito mais, só tenho que agradece-lá, vc não sabe como seus relatos me ajudaram…obrigada!

    • admin disse:

      Então já valeu a pena, Ana!!! Bom saber que você tem passado por aqui e que meus textos te ajudaram de alguma forma. Beijo enorme e parabéns pelas filhotas! Tenho visto as fotos no Face – elas são um exagero de fofura!

  5. Su Bazzo disse:

    Autoconhecimento é uma grande oportunidade de crescimento mesmo. Pra mim, terapia é uma forma de deixar a “alma” mais leve, e ver a Vida como uma grande oportunidade. Ler o seu texto, mostra que estamos no mesmo caminho…” cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”…bjs no coração Rê…

    • admin disse:

      É isso aí, Su! A gente não pode largar a vida à própria sorte, tem é que tomar conta dela direitinho, todo dia! Beijão e obrigada por compartilhar – tive picos de acesso no dia que vc compartilhou com sua rede social no Face!

  6. Marcelo Junior disse:

    Quando lança o filme? Porque eu vou na pré-estreia kkkk

    • admin disse:

      Meu querido, aí é sonhar alto demais, até pra mim, que vivo nas nuvens… Beijo da dindinha que te ama! (Forcei a amizade, né?!Kkkkkkkk)

  7. Rê, acompanhei todos os dias os seus relatos. Obrigada por compartilhar e tenho certeza que poderá ajudar outras pessoas que já passaram ou estejam passando por uma situação semelhante. Parabéns pela coragem e pela sua garra! Beijo, Leila.

  8. Que lindo RÊ!! Tão bom saber que vc conseguiu superar tudo isso com muita garra e fé!!E dividir com as pessoas que precisam , é maravilhoso!!
    Beijos prima querida
    Ju

  9. Divina disse:

    Oi Re!
    Leio,sempre, com muito carinho o seu blog, você é sensacional. O seu relato me levou as lágrimas, pois… em muito momentos vivi, senti e lutei e ainda luto com esse “monstro” que existe no íntimo do ser humano.
    Como você gosta de ler fica aqui uma dica: “A águia e a galinha – Uma metáfora da condição humana” de Leonardo Boff; espero que ainda não o tenha lido! Um beijo carinhoso, Divina

    • admin disse:

      Oi, Prima!
      Minha mãe me deu “A Águia e A Galinha” há muito tempo e eu adorei! Talvez seja hora de ler de novo – obrigada pela dica! Beijo enorme!

  10. É isso aí Rê… Ao contrário do que as pessoas pensam, terapia num é coisa de louco, até por que os loucos não percebem o seu estado. Terapia é coisa de gente corajosa, lúcida, que tem a oportunidade de desbravar seu interior, e eu nunca, nunca vi alguém que se arrependeu de ter feito…
    Depois de 7 anos de terapia enfim, também dei um olé nesse “tal de Pânico”, e de quebra hoje consigo ver muita coisa de fora…. Bom dimaissss sô….

  11. ADRIANA disse:

    Eu sofri de depressão por 6 anos, minha filha Yasmin tambem só dormia quando tomava remedios quando eu me recusava a dar o remédio para ela,não dormia amanhecia o dia acordada passei muito tempo buscando cura em médicos, PSIQUIATRAS, PSICOLOGOS e nada então comecei a orar e implorar para Deus através de muitas oraçãoes, me levei a um “ENCONTRO” ou seja um PENIEL UM ENCONTRO FACE A FACE COM DEUS, e lá eu fui com tanta sede de cura eu clamava por cura e DEUS curou, eu e minha filha, não tomamos mais nem um tipo de remédio controlado,hoje eu não sofro mais de depressão,e nem minha filha hoje ela dorme sem remédio algum se hoje eu choro é de alegria de ver ela dormindo sem estar dopada,acho Re que o que vc escreveu tem um pouco do que eu passei tambem,aprendi que temos que colocar Deus em primeiro lugar sempre,e ter fé que a cura no momento certo vem….vc me deu coragem de dizer um pouco do que aconteceu comigo tambem,obrigada……

  12. Cris Lemos disse:

    Amiga, continuo aqui…..te acompanhando e te admirando…..Grande beijo !

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