Metamor

16
OUT
2012

GloryDays

Cigarra

Assistiu a morte de mais um dia sem sentido sentado na areia morna da Praia Vermelha, sob uma amendoeira-tropical que sempre esteve ali. Seus dias se emendavam como quilômetros de arame farpado e a junção entre eles (aquele ponto em que o metal se retorce e solta quatro pontas espetadas) era precisamente aquele momento – a emenda dos seus dias era o por do sol dolorido. Fez-se capaz de esconder a angústia em algum cômodo desconhecido durante os dias, mas àquela hora, o amargo conseguia arrombar a porta ou vazar pelas frestas e tingia seu corpo cansado de solidão e dúvida.

Olhava as ondas que iam e vinham insistentes convidá-lo a perder-se nelas. Parte dele queria muito perder-se no mar, para nunca mais. Fechou os olhos de medo e ao abri-los outra vez viu o carrinho de picolé que tinha estacionado junto ao tronco da amendoeira. Estava vazio, o calor do dia tinha vendido bem. Deixou a vista parar no rosto do garoto sorridente que estampava o cartaz do sorvete. Queria ser aquele menino, ou qualquer outro. O que será que existia lá na frente? Será que dependeria do que fizesse hoje ou já estaria tudo pronto lhe esperando, sem qualquer chance de mudança? “Comer ou estudar, moleque, o que você escolhe?”. Fácil a decisão quando são estas as opções. Trabalhar pra comer, que nem formiga.

O canto das cigarras subiu um tom e ele percebeu uma delas pousada no peito do seu pé, sacudiu-se com força, mais por instinto que por medo, lançando longe o chinelo de borracha, mas a cigarra grudou-se nele com teimosia. Não se lembrava de jamais ter visto uma cigarra fora do galho de uma árvore e distraiu-se com ela, abraçando os joelhos e aproximando o rosto.

Que bicho mais feio. Corpo grosseiro, atarracado e gorducho, um milagre que possa voar! Cabeça pequena, asas enormes. As asas eram bonitas, uma transparência rendada, mas só as asas. Encarou os olhos escuros e imóveis da cigarra. Duas esferas castanhas, brilhantes, inescrutáveis, que o observavam fixamente. Olharam-se. Estava louco ou via compreensão naqueles olhos? “Tanta gente a esbarrar comigo e nunca um olhar como esse”. A cigarra escalou-lhe a canela sem receio, muito lentamente para que não sentisse cócegas, e parou na altura dos seus joelhos dobrados. Os olhos continuavam enormes a fitá-lo e, no que deve ter sido um devaneio seu, ouviu a cigarra falar: “quando nossos ovos eclodem, as larvas caem no chão e vivem sob o escuro solitário da terra por muitos anos, alimentando-se da seiva de raízes, depois disso precisam cavar túneis e escalar as árvores para, lá em cima, passar por uma completa metamorfose e, só depois disso, ser uma cigarra de verdade, e cantar”. Disse isso e voou pesadamente para um galho qualquer.

Não sei o que se fez do garoto, mas sempre que conto esta estória, penso que Esopo conhecia pouco de cigarras. La Fontaine também.

comentários

  1. lilia disse:

    Muito , mas muito bonito mesmo , Re !Este texto merecia muitos curtir e mais comentarios ainda ! Acho que não estou sendo coruja não ! Gostei demais .

  2. EDGAR GOMES FILHO disse:

    LEGAL RÊ,UM BJO.

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