Ceviche

26
OUT
2012

GloryDays

Estacion

“O que me espera na direção que não escolho?”

(Jack Kerouac) 

 

Desde que provou ao marido que um pequeno mercado de peixes ao sul da cidade, próximo ao vilarejo de Callao, distante 40 minutos do centro, a partir da antiga Estácion de Desamparados, vendia o mais fresco e saboroso atum para o preparo de seu ceviche de domingo, Ylla recebeu permissão para fazer o trajeto nas manhãs de sábado, não devendo demorar-se mais do que três horas para estar de volta com o peixe e retomar os deveres domésticos e o serviço ao marido.

Sábado tornou-se a esperança da semana. Era o mais distante que podia estar de casa e o mais próximo que conseguia chegar do passado. O trajeto a presenteava com as paisagens desérticas dos pampas costeiros, tão familiares, e com as crianças desegrenhadas a correr sorrindo e abanando as mãozinhas para o trem em movimento; gostaria de correr livre como elas outra vez.

O vilarejo de Callao era não mais que uma dúzia de ruas que se cruzavam em torno de uma capela torta, beira-mar, mas não precisava de nada mais que isso para ser o lugar mais feliz que conhecia. Era lá que ela encontrava a morena dos cabelos escuros e compridos, da pele queimada de sol e olhos rasgados, do sorriso inocente e alegria incontida que um dia tinha experimentado ser. Fingia voltar no tempo e caminhava com um rebolar que a Capital desconhecia, rejuvenecia muitos anos em tão poucos instantes. Descalçava os sapatos comportados e caminhava pela areia acinzentada da praia, depois os calçava de novo e ia pedir a benção à Nossa Senhora do Rosário, que guardava a capela, e então sentava-se sob o que, anos atrás, havia sido um pequeno coreto, na praça central. Dali avistava com nitidez a segunda janela vermelha, da quinta casa de adobe cru, da rua da venda. E a visão daquela janela fazia seu peito doer de tal forma que podia sentir um canivete afiado, com a lâmina em brasa, girando dentro dele.

“Vamos, Ylla, vamos, mi amor! Date prisa que el sol se levanta!”. Ao perceber que sua Ylla chorava e que ainda vestia roupas de dormir, o semblante ansioso de Miguel Ángel fechou-se em desespero e incredulidade. “Perdóname, Miguel, perdón, mi amor, yo no puedo…”, sussurrou a jovem Ylla, sob os olhos escorridos. Cerrou a janela vermelha e trancou dentro de si, para sempre, o mais perverso arrependimento.

Sentada sob os restos do coreto, olhou para os sapatos e soltou um riso curto de deboche. Pensou que nenhum castigo pela fuga que nunca aconteceu poderia ter sido maior que a vida que levava. Estava sendo punida de qualquer forma.

“Mais vale fazer e arrepender-se que não fazer e arrepender-se”, afirma o pensamento maquiavélico. Talvez se o conhecesse, não tivesse faltado à Ylla coragem para ir adiante, sua biografia poderia ser outra e, talvez, melhor. Mas, àquela altura, era jovem demais para compreender Maquiavel.

Faltava pouco mais de dez minutos para a partida do trem e pela primeira vez depois de quase três meses revisitando o vilarejo, Ylla teve ganas de perguntar pela família Salazar, com quem havia cortado relações desde a fuga de Miguel Ángel para o México; tinham-na como cúmplice do filho. Caminhou apressada até a venda antes que a coragem lhe escapasse, e perguntou à atendente do caixa:
- ¿Buenos dias, señora. Por favor, acaso conoces la familia Salazar?
- Yo soy de la familia Salazar, Estefánia Salazar. ¿Por qué?

A resposta era completamente inesperada e Ylla perdeu a fala por alguns instantes, sem saber que a pergunta seguinte sairia involuntariamente de sua boca:
- Yo soy una amiga antigua de Miguel Ángel Salazar y me gustaria tener noticias de él.
- ¿Cuál es tu nombre? Perguntou de forma suspeitosa e mal-eduacada.
- Ylla, Ylla Flores.

A pele encardida e levemente enrugada da atendente corou e os olhos brilharam num misto de raiva, ciúme e curiosidade, apoiou os antebraços no balcão de madeira, olhou-a de cima a baixo e respondeu com falso desdém:
- Es curioso, nunca he oído hablar de ti. Miguel Ángel era mi marido. Murió hace casi seis años en un accidente de tráfico en la autopista.

Ylla saiu surda e cambaleante da venda. O trem, precisava tomar o trem. Chorou incontidamente todo o caminho de volta. Passou pelo banheiro da estação final, vomitou, lavou o rosto e viu um fantasma no espelho. Teve vontade de correr para os trilhos e se jogar contra os trens em movimento, espatifar sua vida. Miguel Ángel tinha morrido, tinha se casado e tinha morrido. E agora arrependia-se, também, de ter ido saber notícias suas. Até mesmo as esperanças improváveis, que enfeitavam seus pensamentos e davam alguma graça às noites insones, tinham evaporado naquela manhã, nunca mais Miguel. Se é verdade que até a cor do arrependimento desbota com o tempo, as últimas notícias tinham restaurado todo vigor da sua culpa, todo roxo da penitência.

Cruzou a rua lateral da estação, a caminho da peixaria do velho Gonzalés, que já lhe tinha separado seu melhor atum, como de costume, e estranhou o rosto abatido da cliente amiga. “¿Qué pasa, señora?”, Ylla encarou fundo nos olhos cor de cobre do peixeiro e respondeu com verdade: “pasa nada, Gonzáles, nada”.

Era o vazio que preenchia todas as ínfimas partículas do seu ser.

comentários

  1. lilia... disse:

    Por que ela não pegou o trem e foi embora ?Que estoria triste …E pensar que tem muita mulher passando por isso …Quando é que vamos nos libertar da servidão e do medo? Desisto !!!
    Mas gostei muito do texto ; tem frases tão originais e bem construidas ,Re ! Tipo : ”Era o mais longe que estava de casa e mais perto do passado”; ou:”espatifar a vida” ou ainda ela se imaginando em Callao no passado . Eu não sou ninguem para apreciar o texto ; mas o que a sua mestra achou?

  2. lilia... disse:

    EU sabia que vc não ia gostar do ”50 tons de cinza”! Eu já tinha ouvido falar que era muito mal escrito .Acho que eu ficaria meio decepcionada se vc gostasse …Sou preconceituosa né?Esse negócio de sadomasoquismo me dá nojo !!!

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