Balangandã

19
JUL
2012

GloryDays

Sutiã

As freiras do colégio reuniram todas as meninas da quarta série no auditório redondo e explicaram, com muito jeito e cuidado, que já se notava um certo volume nos seios de algumas de nós, sob o uniforme. Não citaram nomes nem apontaram para uma ou outra, apenas sugeriram de forma generalizada que já era hora de nos protegermos de olhares curiosos, de nos resguardarmos. De lá pra cá, o uso do sutiã é um gesto diário e compulsório. Nem ruim, nem bom, apenas inquestionável.

Então, 27 anos depois, vejo uma pequena nota no jornal falando sobre os cuidados a serem tomados por aquelas que preferem não usar a referida peça íntima. Preferem? Preferem?! O verbo transformou o gesto em opção. A ex-primeira-dama da França abriu mão, talvez eu também pudesse, pensei.

A pequena nota no jornal tinha me cutucado. Fez brotar uma curiosidade, uma baita vontade de transgredir naquela manhã. Não haveria de ser nada grave, são só meus peitos afinal, nada de mais. Corri para o guarda-roupa, escolhi uma blusa de malha azul marinho, para eliminar os riscos de transparência, e amarrei um lenço com estampa floral miúda no pescoço. Jeans, sapatilha de couro cru, rabo de cavalo, rosto lavado, lavanda, leve batom nos lábios e lentes de contato.

A primeira etapa foi o elevador do prédio, o casal do andar de cima já estava lá dentro, “bom dia!”. Não notaram nada, mas preferi simular pressa e me pus bem junto à porta, dando as costas para ambos.

Agora seria uma caminhada curta até o metrô, coisa de duas quadras. Cruzei sorridente o primeiro quarteirão, curtindo aquela liberdade, me sentindo a própria Carrie na vinheta de abertura de Sex and the City. Peitos pra lá e pra cá, balançando em todas as direções. Então comecei a notar os primeiros olhares – masculinos e femininos na mesma proporção, eles com alguma malícia, elas com pura reprovação, à exceção de uma garota, que piscou pra mim. No segundo quarteirão, sem me dar conta, estava com os braços cruzados sobre os peitos e já tinha muito mais da pudica Charlotte do que da altiva Carrie em mim! Sentei quietinha no fundo do vagão questionando seriamente se o uso do sutiã aprisionava ou libertava, afinal.

Continuava de braços cruzados quando cheguei ao escritório. Busquei com pressa minha baia, circulei o mínimo possível, matei o cafezinho e segurei o xixi o tanto que pude, mas quando o Sr. Hoffman, chefe do departamento, me pediu pra ir até a sala dele com o relatório de despesas da equipe de vendas, senti meu sangue gelar – putz, ele só me pedia aquilo a cada três meses, justo hoje?! Que azar!

Não poderia manter os braços cruzados, então decidi entrar com elegância e discrição, mostrar meu excelente trabalho e seguir como se nada anormal ou constrangedor estivesse acontecendo. Começamos a avaliar os dados, esclareci algumas dúvidas e então vi o Sr. Hoffman pegar o controle do ar condicionado, abaixar a intensidade do aparelho e comentar olhando para meus peitos: “suponho que esteja com frio”. Olhei pra baixo e aaaargh! Os bicos estavam duros e pontudos, desavergonhadamente definidos sob o tecido da blusa. Senti meu rosto queimar, ri um riso amarelo e só consegui dizer “não precisava se incomodar, Sr. Hoffman”.

Consumi metade da minha hora de almoço e um bom bocado das minhas economias na única loja de lingerie ali perto, que nunca antes tinha ousado entrar. Comprei um sutiã rosado com bojo de cetim forrado de tule de poá e babados com renda francesa. Comprei uma linda cela pros meus peitos e minha liberdade de volta. Tão sábias as freiras do colégio.

comentários

  1. lilia disse:

    Antes tarde do que nunca!Eu adorei este texto seu Re! Não comentei antes porque nõ sabia ainda; Vc devia escrever mais no Glory Days ,filha.

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