Arte & Artistas

03
SET
2012

Inspirações

Circus

Tem uma coisa na mente dos artistas que me encanta. Talvez seja um defeito na retina ou alguma função cerebral alterada, porque eles conseguem ver o que mais ninguém viu e, como são naturalmente generosos, desenvolvem uma maneira especial de contar pra todo mundo os segredos que descobrem. Alguns usam as telas, outros os palcos, uns a música, a poesia, o barro, uma câmera, um monte de lixo – não importa. Eles dão um jeito da gente ver o que viram, sentir o que sentiram ou, quando ainda mais generosos, deixam a gente livre pra descobrir os próprios segredos. Isso, pra mim, é arte, é nobre e é lindo.

Tenho a sensação de que os artistas são os que mais usufruem da vida, eles a saboreiam com cuidado, não se preocupam ou simplesmente não conseguem se encaixar na vida que chamamos, pretensamente, de normal. Penso que vivam à flor da pele, com todos os poros abertos, prontos pra sentir intensamente estar vivo.

“Pão e circo ao povo”, foi o que recomendou o imperador Vespasiano, na época em que construíam o Coliseu. Tantos séculos depois e é justamente disso que a gente continua precisando (complicamos um poucos as coisas, eu sei, mas a recomendação ainda vale). Do pão cuidamos nós, trabalhamos como loucos pra que nada falte a nós e aos nossos. E o circo? Isto fica por conta dos artistas, sejam os do picadeiro literal, sejam os imortais que falam conosco das paredes dos museus ou os que cantam no rádio do carro. Se a gente parar pra pensar, vai perceber que tem algum tipo de arte da qual não vivemos sem e é a ela que a gente recorre quando quer um momentinho de prazer. A Arte existe porque precisamos dela, porque nutre nossa alma.

Há alguns meses, fui a um circo que estava de passagem pela minha cidade. Era um circo muito simples, com ares decandentes e fui só pelas crianças. Entrei com a arrogância calada de quem, poucos meses antes, tinha ido ao Cirque du Soleil. Tudo muito sem charme, sem beleza, até que prestei atenção na fisionomia do malabarista; estávamos sentados muito perto do picadeiro e deu pra ver bem o orgulho com que ele executava suas manobras. Ele já devia passar dos 60 anos e provavelmente dedicou a vida inteira àquilo. Minha bola começou a baixar ali. Depois entrou uma família de trapezistas orientais e o mesmo jeito orgulhoso e alegre no olhar. Em seguida o palhaço, a bailarina, os motoqueiros do globo da morte. Fiquei pensando na vida dura que deveriam ter para poder continuar levando alegria à vida das pessoas, porque quando não estavam executando seus números, ocupavam outras funções – uns vendiam pipoca no intervalo, outros ajudavam a montar o cenário, viravam assiste de mágico e coisas assim. Mas o olhar era sempre o mesmo e me tocou. Saí de lá com uma lição aprendida: todo artista merece meu respeito e minha gratidão.

Entendi que a Arte nem sempre é bonita. Arte é comunicação através dos sentidos e, às vezes, ela precisa ser feia pra gente entender umas lições.

Toc, toc, toc

30
AGO
2012

Inspirações

Casinha

“Faça o simples, não o fácil”. Minha professora de escrita abriu a aula de ontem com esta frase, citou o autor, mas não me lembro o nome. Começou assim porque o tema da aula foi este mesmo: simplicidade ao escrever e, diferente do que se pode supor, esta é uma tarefa bem difícil. Tudo culpa da vaidade da gente que, até nos textos, quer se enfeitar, usar termos que não são seus, exagerar nos adjetivos, parecer quem não é. E aí, se perde.

Assim como na Literatura, penso que na vida a beleza também more na casa da simplicidade, onde divide quarto com a liberdade e a paz. Mas como é difícil ser simples! Fácil é ser complicado.

A simplicidade exige um conhecimento profundo da nossa essência – do que somos feitos, quem somos, quais são os nossos valores, do que gostamos e o que queremos pra própria vida. Acontece que muitas vezes não dá tempo de parar pra pensar nisso tudo, pra se observar e se ouvir. Então a gente segue a voz estridente da maioria, que nos diz o que vestir, onde ir, que carreira escolher, quem admirar, como se comportar. E aí, se perde.

Pra ser simples, livre e estar em paz a gente precisa se desapegar daquilo que a maioria pensa e do que pensam da gente, ouvir mais a voz baixinha lá de dentro e encontrar sintonia com a nossa essência. Pelo menos é assim que eu penso.

Há uns 3 anos, comecei a produzir alguns eventos para um público descolado (seja lá o que isto signifique) e, seguindo o caminho oposto de tudo que escrevi nos parágrafos acima, botei na cabeça que precisava entender de moda. Estava na moda entender de moda e eu não queria fazer feio. Comprei a Vogue (edição de aniversário, pesava uma tonelada!). Enfiei goela abaixo duas ou três matérias que pareciam ter sido escritas num outro idioma. Juro que me esforcei pra me interessar, mas do meio pro final só consegui folhear as fotos. É óbvio que a Vogue é uma excelente revista, das mais respeitadas no seu segmento, mas não tem nada a ver comigo! Insisti nesta bobagem por um tempo – felizmente, caí na real.

E quando caí na real, fiz uma coisa muito séria (e mais difícil do que eu pensei que seria). Peguei uma folha de papel e tracei uma linha vertical. Na coluna da esquerda escrevi as coisas de que gostava de verdade, escrevi também os principais valores que me guiam (ou que eu gostaria que guiassem). Na coluna da direita, fiz o oposto. Gastei bastante tempo neste exercício, porque queria mesmo buscar as palavras lá dentro de mim, vasculhar tudo, organizar as ideias. Quando achei que já tinha acabado, olhei por papel, reli as palavras e pensei: “muito bem, descobri quem eu sou, agora é só viver de acordo”. Tenho tentado, ora com sucesso, ora com vacilos, mas tenho tentado.

Uma amiga muito amada e cheia de amor por dentro, um dia, falou pra mim: “Rê, não se deixe corromper”. É isso que a gente faz quando não respeita a própria essência: se corrompe. E aí, parceiro (como diria o Cel Nascimento), não dá pra ser feliz.

Desconfio que esta necessidade de buscar a essência tenha sido um presente da maturidade e é por isso que eu gosto cada vez mais dela!

(Me ocorreu agora que, talvez, a autenticidade também more naquela casa que citei lá em cima. Ô, casinha feliz!).

Ter ou não ter filhos?

27
AGO
2012

Inspirações

Filhos

Até engravidar, eu não sabia se queria filhos. Eu tinha 28 anos, estava casada há 5 e, apesar de não fazer a prevenção com o devido cuidado, fiquei surpresa quando descobri que estava grávida. A menstruação atrasou poucos dias, mas foram os seios que me fizeram suspeitar – eles doíam demais! Comprei um teste de farmácia num domingo à noite, mas só quis fazer o teste na manhã seguinte. Acordei muito cedo e fui pro banheiro. Com o teste já em andamento na mão, fechei a tampa do vaso e me sentei nele. Fiquei olhando o risquinho azul surgir bem devagar naquela janelinha, o coração pulando que nem cabrito. O risquinho azul continuou azul e eu não parava de olhar, muda, pasma. Não sei quanto tempo fiquei ali, pode ter sido menos do que eu imagino, mas a lembrança que tenho é em câmera lenta.

Fui acordar meu marido e ele achou que eu estivesse brincando, então eu comecei a chorar e ele sentou na cama, num pulo só, viu que era sério. Eu não chorava de alegria, nem de emoção. Era um combinação de susto, com medo, com “ainda não era a hora”. A reação dele foi parecida, também chorou, mas me colocou no colo e disse que tudo ia dar certo. E deu. Tivemos uma filha linda e saudável e menos de quatro anos depois, um garotão delicioso.

Não sei dizer em que momento eu teria tentado ter filhos se o primeiro não tivesse vindo sem planejamento. Nossa vida era boa demais – liberdade, autonomia, tempo livre, sossego, viagens. Em que momento eu teria coragem de abrir mão de tudo isso, por opção? Não tenho esta resposta, por isso fico pouco à vontade para incentivar minhas amigas (algumas no limite decisivo que a idade impõe) que têm dúvidas a respeito.

Quando eu e meu marido conversávamos sobre ter filhos (ou não), eu achava que os teria, mas nunca me sentia pronta. Não me imaginava mãe, não sonhava com isso como tantas mulheres que conheço, nem de boneca eu gostava de brincar quando era criança. O que me levava a querer ter filhos era pensar no futuro distante, quando eu fosse bem mais velha – seria triste não ter uma família pra curtir. Tão nova e o que me preocupava era uma velhice solitária! A natureza do sentimento era bastante egoísta, reconheço.

Acontece que depois que eles nascem, não dá pra entender a vida sem eles. Liberdade, autonomia, tempo livre, sossego… tudo isso desaparece por um bom tempo. Mas tem um amor que entra no lugar, uma coisa boa que vai te preenchendo e faz você sentir que este é o seu principal papel na Criação. Ter filhos é muito difícil, educar é um trabalho cansativo e diário, tem dias que tenho vontade de sair correndo, tem dias que não suporto ouvir a palavra “mãe”, canso de cuidar. A demanda é constante, existem tarefas que não se pode delegar e algumas vezes sinto falta de fazer o que me dá na telha. Mas, ainda assim, eu os quero bem perto de mim. Ver os filhos se divertindo é mais gostoso do que se divertir (ou é se divertir em dobro!). É doido e só experimentando pra saber.

Numa metáfora bem boba, mas que funcionaria muito bem pra mim, seria assim: a vida é um delicioso bolo de chocolate e os filhos são a cobertura de brigadeiro mole. Passaria a vida inteira comendo só o bolo e já estaria muito bom, mas depois que você experimenta com a cobertura, o bolo puro fica tão sem-graça!

Ter ou não ter filhos? Não ouso responder esta pergunta. É complexa e pessoal demais e nem acredito que tenha uma resposta certa. Pode ser que nem toda mulher tenha nascido pra ser mãe, mas se ela tiver filhos, vai achar que nasceu pra isso. Compreendeu?

Romance

24
AGO
2012

Inspirações

Filmes

Eu já gostei de comédia romântica, hoje prefiro romance. Enredos que envolvem, interpretações que convencem, amores que emocionam e que poderiam ser reais, ainda que impossíveis. Gosto dos finais felizes, mas suporto os tristes se a história pede assim. Depois de um bom romance é inevitável lembrar que também vivo um - uma história de amor que não tem roteiro, falas ensaiadas, trilha sonora, nem está sujeita a edições; é de verdade e, portanto, melhor. Pra mim, os (bons) filmes de romance têm um efeito poderoso - dão uma baita vontade de beijar na boca e de amar. É como se eles colocassem o melhor do amor em perspectiva e ajudassem a lembrar, na corrida vida que levamos, que o romance é necessário. É, penso eu, a melhor parte e o que de mais gostoso um casal que se gosta pode fazer. Pena que, talvez pela tendência daninha de não valorizar o que se tem, tanta gente se acomode num relacionamento café com leite, quando ele poderia ser brindado com champanhe, todo dia.

Esta tarde, tentei me lembrar dos romances que mais me tocaram e provavelmente esqueci de muitos, mas aí embaixo estão os que, por alguma razão, não foram esquecidos. Como não se arrepiar com a explosão do amor que se confirma na cena do barco, em “Diário de Uma Paixão”, ou do olhar dolorido de amor com que Mr. Darcy olha para Elizabeth na cena final de “Orgulho e Preconceito”? O choro contido em cada nova carta de “P.S. Eu Te Amo” e a passividade sofrida diante do amor impossível em “As Pontes de Madison” são de matar! Dá vontade de grudar no marido pra nunca mais largar! Deu pra sentir o amor brotando em “O Despertar de Uma Paixão” de uma das formas mais sensuais que já vi e os diálogos de “Antes do Amanhecer” e de sua continuação, ”Antes do Pôr do Sol”, gravada 10 anos depois, com os mesmos atores, são de uma veracidade incrível, acho que é o mais próximo que um filme poderia chegar de duas pessoas se apaixonando de verdade.

Romances Romance

Romances21 Romance

Romances3B Romance

Já assistiu? Assiste de novo! O final de semana está só começando e acho que pode terminar muito bem, quem sabe…? Tin- tin!

 

Minha Lista

20
AGO
2012

Inspirações

10 Coisas

Outro dia assisti a uma entrevista com Bruno de Luca sobre o novo programa dele pro canal Multishow: “30 Coisas Pra Se Fazer Antes dos 30″ (no ar desde 13 de julho, toda sexta-feira, às 22h). Dei uma olhada na internet e assisti ao episódio em que ele realiza um dos seus 30 sonhos, pilotando uma Ferrari em alta velocidade num autódromo, junto com o Cacá Bueno – muito bom, o Bruno de Luca é uma figura!

Adorei a ideia e resolvi adaptar pra mim, não só porque sou fanática por listas e checklists (hábitos da profissão), mas também porque acho que funciona muito bem colocar prazos pras coisas que queremos fazer de verdade. O tempo corre muito depressa e se a gente não se programa acaba deixando um monte de coisas pra depois ou pra nunca mais.  40 coisas pra se fazer antes dos 40 seria coisa demais! Então resolvi enxugar esta lista para as 10 coisas que quero (muito) fazer antes dos 40. Algumas são bem banais e, seu eu quiser, dá pra começar amanhã, outras são bem mais ousadas, mas todas são gostosas – quero muito!

Lá vai…

1 Escrever um livro Minha Lista

2 Aprender a Cozinhar Minha Lista

3 Fazer Tatto Minha Lista

4 Conhecer Londres Minha Lista

5 Kate Perry1 Minha Lista

8 Festa Linda Minha Lista

7 Aprender a Surfar Minha Lista

Ir à Missa Minha Lista

9 Visitar Inhotim Minha Lista

10 Ir pra NY Minha Lista

Comentei sobre esta lista com minha amiga Flavinha e ela falou: “Nossa, Rê, como a gente é diferente! Na minha lista não ia ter nada disso!” (com exceção do item 10, claro, porque neste ela vai junto!). Achei legal o comentário dela, temos a mesma idade, somos amigas, somos sócias, nos adoramos, mas sonhamos diferente. Fiquei curiosa, perguntei qual seria a lista dela e ela ficou de pensar… E você, não gostaria de pensar na sua lista?

Prometo contar aqui no blog cada vez que eu colocar um “OK” na minha lista! Ótima semana pra vocês!

Divisor de Águas (Parte Final):

08
AGO
2012

Inspirações

Livre

O primeiro ano da terapia foi, certamente, o mais difícil e o remédio me permitiu atravessar este período de maneira consciente, mas menos vulnerável ao desequilíbrio químico que tanto castigou o meu organismo. E a oração era o meu colchão, era a certeza confortante de que se eu caísse, ainda teria um colo protetor para me segurar.

Depois de algumas semanas de terapia, a A. sugeriu que eu experimentasse o divã. Experimentei e até hoje sento lá. O divã te dá uma liberdade incrível pra se expressar, não tem ninguém avaliando seu rosto e nenhum rosto pra você avaliar, então é mais fácil se concentrar só nos seus pensamentos e pronto. Eu me perco um pouco na cronologia das coisas, na ordem das descobertas e aprendizados, mas lembro bem da A. ter me explicado que nosso trabalho inicial seria de desconstrução. Era preciso eu entender quem eu era de fato – esta é base da terapia – precisaríamos derrubar a estrutura frágil e comprometida que me sustentava, para então aplainar o terreno, criar pilares sólidos e começar a reconstrução de mim mesma, num trabalho longo, por vezes dolorido e muito, muito bonito.

Posso dizer que o primeiro ano foi uma derrubada só! Cada sessão era como golpes daquelas bolas de concreto gigantes que são lançadas contra as paredes de um edifício que precisa ser derrubado. O pior de tudo é que, muitas vezes, eu me via entre o edifício e a bola gigante, sacudindo meus braços desesperadamente, pedindo que o edifício fosse poupado, tentando proteger aquela estrutura que, apesar de comprometida, era a que eu conhecia e acreditava. Várias vezes, depois de ouvir a A. fazer alguma observação a meu respeito (ela sempre observa, nunca afirma), eu pensava comigo: “essa mulher tá louca!”, acontece que muuuuuitas vezes, quando eu baixava a guarda e procurava refletir sobre aquelas observações, percebia que a louca era eu. E então, de todas as coisas incríveis que aprendi com a terapia, talvez a mais preciosa tenha sido esta: “quando alguém discorda de mim, pode ser que eu não esteja com a razão”. Nossa, este aprendizado foi (e é!) precioso!

Ao contrário do que muita gente pensa, a terapia bem feita não cria relação de dependência com o analista. Eu, pelo menos, nunca senti assim. Você estabelece uma relação de confiança e desenvolve um trabalho a quatro mãos (sendo que é a sua mão que vai pra massa!). O analista joga luz no seu conflito, deixando-o mais visível para você resolver. A terapia me deu a abençoada oportunidade de ver a vida com mais clareza e eu comecei a pegar gosto por isso, passei a dar o devido peso para as coisas, amadureci, descompliquei, me apaixonei pela incrível capacidade humana de moldar o próprio ser e evoluir. Comigo tem sido assim. O professor ensina, mas o mérito de uma boa nota é sempre do aluno, se é que vocês me entendem.

Depois de um ano e alguns meses, queria engravidar novamente, desta vez com planejamento. Psicóloga e psiquiatra estavam seguras em afirmar que eu poderia ir adiante, que já estava pronta pra tirar a medicação, de forma lenta e gradual e, em três meses, tinha parado com a sertralina. Outros três meses e eu estava grávida de um garotão. Continuava freqüentando o grupo de oração e duas sessões semanais de terapia.

Depois que meu filho nasceu, deixei o grupo por causa das demandas naturais de um recém-nascido, fazia minhas orações em casa, com a mesma intensidade. A terapia, no entanto, estava a pleno vapor, parei apenas por um mês. Estávamos alcançando a fase de “aplainar o terreno”, eu já tinha entendido muita coisa sobre o meu problema, já conseguia encarar o monstro de frente e isso o fazia diminuir de tamanho, ser menos assustador. Ano após ano, fui entendo as ameaças que este monstro oferecia, então ele foi ficando menor e menor ou talvez mais distante, ele até ganhou um nome, chama-se medo. Continuo consciente de que ele existe, faz parte de mim e de todo ser humano, mas estamos convivendo civilizadamente há vários anos. Quando ele dá de querer crescer, olho bem pra ele e digo: “te aquieta!”, tem hora que ele obedece rápido, tem vezes que dá mais trabalho, mas tem estado sob controle. Aprendi a mostrar os dentes pra ele também.

Meu filho completou cinco anos em junho passado, nunca mais tomei remédios, mas mantenho a terapia uma vez por semana. Agora não mais pelos mesmos motivos que me fizeram iniciar este processo, mas porque gosto de ter um momento só meu, pra pensar nas minhas coisas, pra ser questionada e contrariada e ter a rica oportunidade de rever meu ponto de vista, ainda que seja para mantê-lo. Há algum tempo, a A. me perguntou se eu não pensava em parar, que talvez fosse hora de caminharmos para a alta. Eu respondi que não, não quero alta, sei que viveria bem sem a terapia, mas sinto que ainda há muito pra descobrir, talvez nunca se esgote. Somos uma obra inacabada e isso é mágico! A gente sempre vai poder dar novas pinceladas, novos formatos.

A história não tem fim porque eu ainda estou viva, mas chegamos a este presente momento e eu quero agradecer por seu interesse em acompanhar esta epopéia até o final. Foi muito bom escrevê-la. Foi bom olhar pra trás, repassar os detalhes, registrar minha travessia. E olha que legal este trecho de um livro que estou lendo justamente nesta semana:

“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que passou”.

(Do livro “Risíveis Amores”, de Milan Kundera)

E então eu entendo que se eu não tivesse passado por tudo o que passei, talvez atravessasse a vida inteira vivendo na superfície, sem acesso a todas as belezas que encontrei no íntimo de mim. Teria sido um desperdício. Passei por isso para ser melhor. Deus sabe o que faz.

linha1 Divisor de Águas (Parte Final):

Obrigada, marido! Obrigada, mãe e pai! Obrigada, A.! Obrigada, Pai do Céu! Se a minha vida fosse um livro, a dedicatória seria para vocês.