Teu Querer

18
AGO
2012

GloryDays

Love

Tem tanta coisa que eu quero,
Mas não quero nada de mais.
São quereres possíveis,
Que eu mesma tenho a me dar.
Não tem loja que venda,
Nem embrulho que embale.
Não quero coisas, quero saberes,
Quero ser quem eu gostaria que eu fosse.
Assim, ó:
Quero ser presente, pra degustar o dia
Quero ser disposta, pra envelhecer bonita
Quero ser dedicada, pra vencer na vida
Quero ser corajosa, pra quando vier a dor
Quero ser melhor, com você, seja onde for.

minha professora

01
AGO
2012

GloryDays

Noemi

minha professora de escrita é meio mágica. ela guarda o mundo inteiro dentro dela – tantos livros, contos e histórias, tantos idiomas, tanto saber e tanto gosto por tudo isso que é muito bom que estas coisas não ocupem espaço dentro da gente, senão ela já teria explodido.

mas a mágica não está no fato de ela conseguir guardar tanta coisa, a magia está no jeito que ela mostra tudo isso pra gente. primeiro ela introduz o assunto do encontro, depois lê textos de autores consagrados que ilustrem o tema, por último ela lança um exercício para que a gente transforme a teoria em prática. a técnica seria comum, não fosse a minha professora. a magia, quase feitiço, acontece enquanto ela está falando. nada me distrai, nada mais me interessa, mantenho meu olhar fixo nela, não perco muito tempo tomando nota, prefiro confiar que vou sorver aquele rio de palavras e ele vai passar a correr em mim, como numa transfusão.

gosto quando ela sorri, é um dos sorrisos mais bonitos que já vi, porque ele nasce do entusiasmo com as palavras. muitas vezes, durante a explicação, ela se cala, fica séria, parece que está fazendo uma varredura mental em busca do melhor exemplo, da melhor definição, da palavra exata e quando ela acha (ela sempre acha) ela fala e sorri bem grande, fazendo rugas nas bochechas e no canto dos olhos e as rugas parecem ecos do sorriso. acho que ela fica linda quando acha as palavras.

eu sou fã da minha professora, ela tem livros publicados, poemas, textos e artigos e muitos outros que ainda não foram escritos. eu tenho um livro autografado por ela, motivo de orgulho pra mim, não só pelo autógrafo, mas por ela ser minha professora. adoro aprender com ela e sou muito grata pelos textos que escrevo, eles estão ficando melhores. não necessariamente bons, mas melhores.

minha professora falou que na literatura moderna a gente pode fazer o que quiser, transgredir e até desrespeitar as normas gramaticais, desde que tenha um propósito. é por isso que este texto não tem maiúsculas e o propósito é dar o devido destaque ao nome dela. o nome dela é Noemi.

Balangandã

19
JUL
2012

GloryDays

Sutiã

As freiras do colégio reuniram todas as meninas da quarta série no auditório redondo e explicaram, com muito jeito e cuidado, que já se notava um certo volume nos seios de algumas de nós, sob o uniforme. Não citaram nomes nem apontaram para uma ou outra, apenas sugeriram de forma generalizada que já era hora de nos protegermos de olhares curiosos, de nos resguardarmos. De lá pra cá, o uso do sutiã é um gesto diário e compulsório. Nem ruim, nem bom, apenas inquestionável.

Então, 27 anos depois, vejo uma pequena nota no jornal falando sobre os cuidados a serem tomados por aquelas que preferem não usar a referida peça íntima. Preferem? Preferem?! O verbo transformou o gesto em opção. A ex-primeira-dama da França abriu mão, talvez eu também pudesse, pensei.

A pequena nota no jornal tinha me cutucado. Fez brotar uma curiosidade, uma baita vontade de transgredir naquela manhã. Não haveria de ser nada grave, são só meus peitos afinal, nada de mais. Corri para o guarda-roupa, escolhi uma blusa de malha azul marinho, para eliminar os riscos de transparência, e amarrei um lenço com estampa floral miúda no pescoço. Jeans, sapatilha de couro cru, rabo de cavalo, rosto lavado, lavanda, leve batom nos lábios e lentes de contato.

A primeira etapa foi o elevador do prédio, o casal do andar de cima já estava lá dentro, “bom dia!”. Não notaram nada, mas preferi simular pressa e me pus bem junto à porta, dando as costas para ambos.

Agora seria uma caminhada curta até o metrô, coisa de duas quadras. Cruzei sorridente o primeiro quarteirão, curtindo aquela liberdade, me sentindo a própria Carrie na vinheta de abertura de Sex and the City. Peitos pra lá e pra cá, balançando em todas as direções. Então comecei a notar os primeiros olhares – masculinos e femininos na mesma proporção, eles com alguma malícia, elas com pura reprovação, à exceção de uma garota, que piscou pra mim. No segundo quarteirão, sem me dar conta, estava com os braços cruzados sobre os peitos e já tinha muito mais da pudica Charlotte do que da altiva Carrie em mim! Sentei quietinha no fundo do vagão questionando seriamente se o uso do sutiã aprisionava ou libertava, afinal.

Continuava de braços cruzados quando cheguei ao escritório. Busquei com pressa minha baia, circulei o mínimo possível, matei o cafezinho e segurei o xixi o tanto que pude, mas quando o Sr. Hoffman, chefe do departamento, me pediu pra ir até a sala dele com o relatório de despesas da equipe de vendas, senti meu sangue gelar – putz, ele só me pedia aquilo a cada três meses, justo hoje?! Que azar!

Não poderia manter os braços cruzados, então decidi entrar com elegância e discrição, mostrar meu excelente trabalho e seguir como se nada anormal ou constrangedor estivesse acontecendo. Começamos a avaliar os dados, esclareci algumas dúvidas e então vi o Sr. Hoffman pegar o controle do ar condicionado, abaixar a intensidade do aparelho e comentar olhando para meus peitos: “suponho que esteja com frio”. Olhei pra baixo e aaaargh! Os bicos estavam duros e pontudos, desavergonhadamente definidos sob o tecido da blusa. Senti meu rosto queimar, ri um riso amarelo e só consegui dizer “não precisava se incomodar, Sr. Hoffman”.

Consumi metade da minha hora de almoço e um bom bocado das minhas economias na única loja de lingerie ali perto, que nunca antes tinha ousado entrar. Comprei um sutiã rosado com bojo de cetim forrado de tule de poá e babados com renda francesa. Comprei uma linda cela pros meus peitos e minha liberdade de volta. Tão sábias as freiras do colégio.

Certeza Absoluta

24
DEZ
1997

GloryDays

quadro

Depois de quase quatro anos juntos, agora era oficial: íamos nos casar! A data estava marcada (uma iniciativa minha, devo dizer, que daria um outro texto…) para dalí nove meses, de maneira que seria de bom tom ficarmos noivos. Eu estava numa alegria só! Queria muito casar, estava pronta para viver aqueles romances dignos de cinema. Meu nome era certeza (e o sobrenome absoluta), sabia que tinha achado a minha outra parte.

No entanto, em meio a toda minha excitação, algo muito triste acontecia: minha futura sogra estava doente e não sabíamos quando (e nem se) ela ficaria boa, não ficamos noivos de imediato esperando a melhor oportunidade, mas ela piorou e no início do mês de dezembro, foi internada. Já não havia muita esperança de que ela visse nosso casamento e então sugeri que ao menos garantíssemos que ela estivesse presente no nosso noivado. Após autorização do médico e enfermeiros, combinamos de ficar noivos no hospital, na noite de Natal.

Fomos eu, meus pais, meu futuro marido e o pai dele. Sem nada de formalidade, o Beto fez o pedido, trocamos as alianças e abrimos um champanhe, degustado em copos descartáveis. Simples, singular, genuíno.

Duas coisas a respeito daquele dia que nunca vou me esquecer: a primeira é que dormi de luz acesa porque não conseguia parar de olhar pra aliança na minha não direita e a segunda é o olhar molhado e pacífico com que minha sogra olhou para nós, como quem nos abençoava em silêncio e continuaria nos abençoando sempre, lá do Céu.