Sai de mim

03
ABR
2013

GloryDays

Flores

tem uma coisa presa em mim

é uma vontade que não reconheço a origem

e por ser desconhecida, não consigo dar forma

sei só que a beleza me inquieta

explícita numa tela ou escondida sob os versos ou num vaso de flores

é o subjetivo que me move

tal qual uma isca que não consigo alcançar

então eu escrevo

e sossego um pouco

bem pouco

Ceviche

26
OUT
2012

GloryDays

Estacion

“O que me espera na direção que não escolho?”

(Jack Kerouac) 

 

Desde que provou ao marido que um pequeno mercado de peixes ao sul da cidade, próximo ao vilarejo de Callao, distante 40 minutos do centro, a partir da antiga Estácion de Desamparados, vendia o mais fresco e saboroso atum para o preparo de seu ceviche de domingo, Ylla recebeu permissão para fazer o trajeto nas manhãs de sábado, não devendo demorar-se mais do que três horas para estar de volta com o peixe e retomar os deveres domésticos e o serviço ao marido.

Sábado tornou-se a esperança da semana. Era o mais distante que podia estar de casa e o mais próximo que conseguia chegar do passado. O trajeto a presenteava com as paisagens desérticas dos pampas costeiros, tão familiares, e com as crianças desegrenhadas a correr sorrindo e abanando as mãozinhas para o trem em movimento; gostaria de correr livre como elas outra vez.

O vilarejo de Callao era não mais que uma dúzia de ruas que se cruzavam em torno de uma capela torta, beira-mar, mas não precisava de nada mais que isso para ser o lugar mais feliz que conhecia. Era lá que ela encontrava a morena dos cabelos escuros e compridos, da pele queimada de sol e olhos rasgados, do sorriso inocente e alegria incontida que um dia tinha experimentado ser. Fingia voltar no tempo e caminhava com um rebolar que a Capital desconhecia, rejuvenecia muitos anos em tão poucos instantes. Descalçava os sapatos comportados e caminhava pela areia acinzentada da praia, depois os calçava de novo e ia pedir a benção à Nossa Senhora do Rosário, que guardava a capela, e então sentava-se sob o que, anos atrás, havia sido um pequeno coreto, na praça central. Dali avistava com nitidez a segunda janela vermelha, da quinta casa de adobe cru, da rua da venda. E a visão daquela janela fazia seu peito doer de tal forma que podia sentir um canivete afiado, com a lâmina em brasa, girando dentro dele.

“Vamos, Ylla, vamos, mi amor! Date prisa que el sol se levanta!”. Ao perceber que sua Ylla chorava e que ainda vestia roupas de dormir, o semblante ansioso de Miguel Ángel fechou-se em desespero e incredulidade. “Perdóname, Miguel, perdón, mi amor, yo no puedo…”, sussurrou a jovem Ylla, sob os olhos escorridos. Cerrou a janela vermelha e trancou dentro de si, para sempre, o mais perverso arrependimento.

Sentada sob os restos do coreto, olhou para os sapatos e soltou um riso curto de deboche. Pensou que nenhum castigo pela fuga que nunca aconteceu poderia ter sido maior que a vida que levava. Estava sendo punida de qualquer forma.

“Mais vale fazer e arrepender-se que não fazer e arrepender-se”, afirma o pensamento maquiavélico. Talvez se o conhecesse, não tivesse faltado à Ylla coragem para ir adiante, sua biografia poderia ser outra e, talvez, melhor. Mas, àquela altura, era jovem demais para compreender Maquiavel.

Faltava pouco mais de dez minutos para a partida do trem e pela primeira vez depois de quase três meses revisitando o vilarejo, Ylla teve ganas de perguntar pela família Salazar, com quem havia cortado relações desde a fuga de Miguel Ángel para o México; tinham-na como cúmplice do filho. Caminhou apressada até a venda antes que a coragem lhe escapasse, e perguntou à atendente do caixa:
- ¿Buenos dias, señora. Por favor, acaso conoces la familia Salazar?
- Yo soy de la familia Salazar, Estefánia Salazar. ¿Por qué?

A resposta era completamente inesperada e Ylla perdeu a fala por alguns instantes, sem saber que a pergunta seguinte sairia involuntariamente de sua boca:
- Yo soy una amiga antigua de Miguel Ángel Salazar y me gustaria tener noticias de él.
- ¿Cuál es tu nombre? Perguntou de forma suspeitosa e mal-eduacada.
- Ylla, Ylla Flores.

A pele encardida e levemente enrugada da atendente corou e os olhos brilharam num misto de raiva, ciúme e curiosidade, apoiou os antebraços no balcão de madeira, olhou-a de cima a baixo e respondeu com falso desdém:
- Es curioso, nunca he oído hablar de ti. Miguel Ángel era mi marido. Murió hace casi seis años en un accidente de tráfico en la autopista.

Ylla saiu surda e cambaleante da venda. O trem, precisava tomar o trem. Chorou incontidamente todo o caminho de volta. Passou pelo banheiro da estação final, vomitou, lavou o rosto e viu um fantasma no espelho. Teve vontade de correr para os trilhos e se jogar contra os trens em movimento, espatifar sua vida. Miguel Ángel tinha morrido, tinha se casado e tinha morrido. E agora arrependia-se, também, de ter ido saber notícias suas. Até mesmo as esperanças improváveis, que enfeitavam seus pensamentos e davam alguma graça às noites insones, tinham evaporado naquela manhã, nunca mais Miguel. Se é verdade que até a cor do arrependimento desbota com o tempo, as últimas notícias tinham restaurado todo vigor da sua culpa, todo roxo da penitência.

Cruzou a rua lateral da estação, a caminho da peixaria do velho Gonzalés, que já lhe tinha separado seu melhor atum, como de costume, e estranhou o rosto abatido da cliente amiga. “¿Qué pasa, señora?”, Ylla encarou fundo nos olhos cor de cobre do peixeiro e respondeu com verdade: “pasa nada, Gonzáles, nada”.

Era o vazio que preenchia todas as ínfimas partículas do seu ser.

Metamor

16
OUT
2012

GloryDays

Cigarra

Assistiu a morte de mais um dia sem sentido sentado na areia morna da Praia Vermelha, sob uma amendoeira-tropical que sempre esteve ali. Seus dias se emendavam como quilômetros de arame farpado e a junção entre eles (aquele ponto em que o metal se retorce e solta quatro pontas espetadas) era precisamente aquele momento – a emenda dos seus dias era o por do sol dolorido. Fez-se capaz de esconder a angústia em algum cômodo desconhecido durante os dias, mas àquela hora, o amargo conseguia arrombar a porta ou vazar pelas frestas e tingia seu corpo cansado de solidão e dúvida.

Olhava as ondas que iam e vinham insistentes convidá-lo a perder-se nelas. Parte dele queria muito perder-se no mar, para nunca mais. Fechou os olhos de medo e ao abri-los outra vez viu o carrinho de picolé que tinha estacionado junto ao tronco da amendoeira. Estava vazio, o calor do dia tinha vendido bem. Deixou a vista parar no rosto do garoto sorridente que estampava o cartaz do sorvete. Queria ser aquele menino, ou qualquer outro. O que será que existia lá na frente? Será que dependeria do que fizesse hoje ou já estaria tudo pronto lhe esperando, sem qualquer chance de mudança? “Comer ou estudar, moleque, o que você escolhe?”. Fácil a decisão quando são estas as opções. Trabalhar pra comer, que nem formiga.

O canto das cigarras subiu um tom e ele percebeu uma delas pousada no peito do seu pé, sacudiu-se com força, mais por instinto que por medo, lançando longe o chinelo de borracha, mas a cigarra grudou-se nele com teimosia. Não se lembrava de jamais ter visto uma cigarra fora do galho de uma árvore e distraiu-se com ela, abraçando os joelhos e aproximando o rosto.

Que bicho mais feio. Corpo grosseiro, atarracado e gorducho, um milagre que possa voar! Cabeça pequena, asas enormes. As asas eram bonitas, uma transparência rendada, mas só as asas. Encarou os olhos escuros e imóveis da cigarra. Duas esferas castanhas, brilhantes, inescrutáveis, que o observavam fixamente. Olharam-se. Estava louco ou via compreensão naqueles olhos? “Tanta gente a esbarrar comigo e nunca um olhar como esse”. A cigarra escalou-lhe a canela sem receio, muito lentamente para que não sentisse cócegas, e parou na altura dos seus joelhos dobrados. Os olhos continuavam enormes a fitá-lo e, no que deve ter sido um devaneio seu, ouviu a cigarra falar: “quando nossos ovos eclodem, as larvas caem no chão e vivem sob o escuro solitário da terra por muitos anos, alimentando-se da seiva de raízes, depois disso precisam cavar túneis e escalar as árvores para, lá em cima, passar por uma completa metamorfose e, só depois disso, ser uma cigarra de verdade, e cantar”. Disse isso e voou pesadamente para um galho qualquer.

Não sei o que se fez do garoto, mas sempre que conto esta estória, penso que Esopo conhecia pouco de cigarras. La Fontaine também.

Escondidas

13
SET
2012

GloryDays

Labirinto

A menina sonhou que, num descuido, as palavras tinham fugido para o jardim, ficou preocupada por causa do mau tempo anunciado pelo vento e saiu a procurá-las. Achou os artigos presos às árvores feito maçãs maduras, as palavras difíceis conversavam polidamente sob o salgueiro da tia Glória, as rimas pobres sapecavam aos pares sobre a grama verdinha, amor, coração, sonhos e vida se exibiam na gangorra que há muito andava capenga e os acentos brincavam como mil borboletas. Caíram os primeiros pingos gordos de chuva, mas a menina não parava de procurar – onde teriam se metido as metáforas bonitas, as rimas raras e as palavras perfeitas? Sempre tão difíceis de achar, pensou e o pensamento fez acender uma idéia. Correu até a entrada do labirinto abandonado escondido atrás do bambuzal, mas achou melhor não entrar. É claro que estavam todas lá dentro. A chuva já desfazia os cachos pretos da menina, mas ela continuava imóvel, sem desviar os olhos da entrada do labirinto. Uma lebre apressada passou por ali e perguntou:

O que faz aí parada, menina?

Perdi minhas palavras preferidas lá dentro.

E por que não entra pra buscá-las?

Porque não sei como são. Porque elas só aparecem na hora que querem. Porque elas são livres e não virão à força.

A lebre foi embora e a primeira palavra perfeita apareceu: espera.

Estou atrasado!

01
SET
2012

GloryDays

Alice Rabiit

Todos sempre me tomaram por louco e, diante de situação tão embaraçosa, nunca me atrevi a negar.

Pois bem, do alto dos meus oito anos de análise, resolvi revelar as reais circunstâncias de minha infeliz e apressada passagem pela história da tal loirinha Alice, essa sim, louca de pedra.

A verdade é que venho duma distinta linhagem de coelhos-atores, a mais alta casta de nossa espécie. Observem as orelhas altas e pontudas, que escutam até o que não devem. O pelo muito macio e absolutamente níveo nos distigue de primos mais encardidinhos como as chinchilas e os esquilos. Nosso sinal mais marcante, porém, está no fato de andarmos sobre duas patas, sempre muito bem vestidos. Isso sim nos garante papéis de destaque nos clássicos.

A história da loirinha, no entanto, foi um mero e desastroso acaso. Não havia sido escalado para a fábula em questão que, a propósito, me parece muito aquém de tanto sucesso. Ocorre que comi algo estranho naquela manhã… Custódio, nosso confiável mordomo, resolveu lambuzar minhas cenouras com azeite de dendê, uma especiaria dos trópicos que ganhou dum parente roedor. Por Jessica Rabbit, o que é aquilo?! Meus nobres e sensíveis intestinos se revoltaram! Eu caminhava ingenuamente pelos bastidores da historieta da menina Alice quando percebi o que estava por vir e corri apressada e desesperadamente à procura de um banheiro. Quando me dei conta, estava em cena aberta e tudo o que pude fazer para manter o mínimo de dignidade foi simular um compromisso e entre uma olhada e outra no relógio, sem nunca ver as horas, procurava avidamente as letrinhas “WC”. É claro que eu estava com pressa, com muita pressa – vocês também não estariam?

Passado o desespero, cruzo com a loirinha no corredor e ela me dirige a palavra, com ar angelical: “Foi um lindo sonho, não foi mesmo?”. Não me contive: “Ah, vá te catar! Pode ter sido sonho pra você, pra mim foi um pesadelo mau-cheiroso!”.

Dar as Mãos

22
AGO
2012

GloryDays

Maos Dadas

Parei pra pensar no gesto, no seu sentido, nas mensagens mudas que emite, nos sentimentos que oculta. Me encantei com a beleza escondida nas mãos que se dão e com nossa sutileza ao amar.

Ao pequeno e ao mais velho damos as mãos por cuidado e proteção.

Ao estranho estendemos a mão e, sem notar, formamos uma ponte.

Ao amigo damos as mãos porque é bom e aos inimigos pra dizer que a guerra acabou.

E por que mesmo damos as mãos ao nosso par?

Vejam que coisa bonita:

Sem as mãos não há par, somos apenas dois.